30 de março de 2009

Jeová, Mamom e Belzebu


Quando Ele chegou, foi tomado de zelo, ou coisa que se traduza semelhante, e foi virando as mesas dos cambistas, expulsando os mercadores e seus animais, disponíveis para venda.

Parabolizando:
Era como a dona de casa que trabalha fora e, chegando em casa com suas visitas, se depara com uma grande orgia, promovida pela empregada, a quem confiara seu lar para que mantivesse limpa. E pior: Tal procedimento era repetido sistematicamente pela funcionária, não se importando com o que a dona de casa pensava a respeito.
Que tipo de indignação nos invadiria nesta hora?

O episódio onde Jesus purifica o templo é um dos poucos que estão relatados nos quatro evangelhos. Assim como a crucificação, algo não pode ser ignorado por nenhum dos evangelistas. Talvez, a incomum explosão emocional do messias tenha causado essa atenção especial. Talvez não...

Alguns procuram entender essa raiva explicita do Filho do homem, não relatada em nenhum outro trecho, mesmo quando ele é submetido a torturas e agressões das mais variadas.

J.J.Benitez, autor da série de livros “Operação Cavalo de Tróia” – onde relata supostas experiências ultra-secretas feitas pela NASA, quando dois militares americanos voltam no tempo, na Palestina da época de Jesus – conta que este trecho, ditado por quem esteve lá, foi apenas o estouro da manada dentro do templo, onde o Cristo, assumindo o papel de vaqueiro, controla os animais, regularizando a situação de crise.
Para aqueles que preferem a idéias de um Deus sempre sereno – beirando ao apático – essa versão estilizada de Benitez é confortante.

Mas por que os quatro evangelistas bíblicos cometeriam o mesmo equivoco, interpretando de um simples estouro de boiada como explosão de raiva?
Há controvérsias perceptíveis na opinião de Jesus sobre o templo, que poderiam reforçar a narrativa de Benitez:
  • Ele – o templo - seria destruído em breve, com a permissão Divina;
  • Não é em um lugar, mas em espírito e verdade, e um Templo, simplesmente, seria dispensável;
  • A idéia de construir um palácio para Deus foi de Davi – não de Deus, e construído por Salomão, seu filho;
A concepção intelectual da obra, sua distribuição, essa sim, foi de Jeová.
O tal templo ainda seria destruído e reconstruído algumas vezes durante sua história. Era símbolo de orgulho nacional – e um ícone para as outras nações. Era sua torre Eiffel, sua Estatua da Liberdade, sua muralha da China.
Para as nações da antiguidade, o "norte" na bussola que indicava a opção mais confiável de um Deus real, e não uma mistificação idolatra. Deus, em seu projeto de templo, previu isso, e planejou um lugar para os possíveis peregrinos. No lugar onde os israelitas o adorariam, haveria um espaço para os estrangeiros prestarem seu culto.

E os gentios vinham, buscando conhecer o El Shaday, o Deus israelita que serve seu povo. e não tem necessidade de ser servido.
A peregrinação internacional gerou a necessidade de planejamento e logística. Todo este planejamento gerou trabalho, mão de obra era necessária para suprir a estadia e alimentação necessária, e o trabalho gerou lucro.
O lucro gerou interesses adversos, fora do foco no qual foi gerado: suprir o povo que vinha buscar Deus. Outros fins utilizando os meios - aparentemente - louváveis.
Não demorou até que no lugar do templo, destinado aos “de fora”, ser preenchido por uma feira de cambistas e produtos relacionados ao “evento templo”. Animais de diversos portes e gêneros defecavam no caminho, onde gentios e saqueadores concorriam.
O plano inicial do Senhor para fundar uma nação era:
“Abraão, em ti serão benditas TODAS as nações...”
Deus receberia seus visitantes, que buscavam o templo, para nele serem informados: “Não é um lugar, mas em espírito, em verdade”, mas no lugar onde haveria sinais do Celestial, encontravam lixo e fezes animais pisoteadas.

Qual a indignação da dona de casa, ao chegar com seus convidados, e ver sua casa transformada num Pancadão Carioca preparado para os traficantes mais perigosos, e feitos por sua pessoa de confiança.
Fala-se tanto de ficarmos divididos entre Deus e Mamom – O deus das riquezas, que nem se percebe que oferecemos outra potestade para muitos: Belzebu (Esse principado tem em seu nome o significado hebraico “príncipe das fezes”ou "príncipe das moscas das fezes").
Quando admitimos que na casa destinada a busca de Deus seja maculada - sim, inicialmente não notamos a macula - com nossas necessidades extra-reino, corremos o risco de confundir os que buscam a Verdade com as merdas que produzimos nos templos.

Deus está certo em sua indignação. Não poderia ser de outra forma, e Ele queria que soubéssemos disso.