11 de junho de 2009

O Encontro


Zé Luís

Não tenho a intenção em tentar convencer que isto realmente aconteceu. Tenho pelo menos dez testemunhas da primeira visita, e mais de trinta, quando o encontro aconteceu, em 2001, se a memória não me falha.

Na época, dava estudos bíblicos para jovens e adolescentes aos domingos, numa igreja evangélica no meio de uma comunidade de São Bernardo do Campo, e por não ter um mínimo de conhecimento sobre didática ou coisas relacionadas à pedagogia, pedia a Deus que me ajudasse a pensar no que eu poderia falar para aqueles garotos, que disputava entre traficantes e tarados daquele lugar.

Não eram muitos, mas gostavam de me ouvir e eu, de compartilhar minhas experiências e meditações com eles.

Foi uma destas idéias que borbulhavam constantemente em minha alma – e quase ouso afirmar que eram idéias não nasciam de mim, por estarem acima de minha capacidade intelectual. Acreditava que eram resposta para minhas orações. Tudo surgia pronto, definido.

Daquela vez, minha classe, sem saber, seria levada para conhecer Agnaldo Perin, um velho amigo, com quem passei boa parte de minha adolescência e mocidade. Era interessante ver os olhos assustados dos garotos ao descer do microônibus na porta do cemitério da Vila Euclides numa tarde de domingo, e se dirigir à sepultura onde o “Gui” jazia à quase quinze anos, vítima de um acidente de moto quando não tinha nem dezenove anos de idade.

Após o susto inicial – e só para aqueles que estavam ali – explicava o objetivo de estarmos ali: a imensa maioria das pessoas enterradas não conseguia acreditar que um dia estaria naquela condição Também era uma forma de me redimir com meu amigo, já que, por motivos pessoais da época, não me aproximei do corpo durante o velório ou mesmo no momento do enterro.

O sujeito era muito engraçado, e sua tumba mostrava um pouco disso: a família não conseguiu encontrar nenhuma foto onde ele não estivesse fazendo careta, e a que está ainda na lápide tem um moço loiro e narigudo, rindo com a boca torta.

Depois saíamos pelo cemitério, conhecendo o que era um sepulcro caiado, ou conhecendo a história de algumas das pessoas enterradas ali, contadas pelos próprios funcionários. Histórias trágicas de amor, saudade, paixões, num lugar com mais de um século de funcionamento.

Foi um sucesso! O impacto positivo naquelas almas foi tão evidente que a mocidade exigiu que a tal dinâmica fosse reapresentada para sua classe, e que antes de um mês faríamos novamente. Desta vez, iríamos pela manhã fria e ensolarada de um domingo de Junho.

Desta vez, eram mais de trinta - fora os que foram da primeira vez.

Os jovens se espalharam entre as tumbas diante da lápide onde meu amigo descansava, e não era difícil causar curiosidade para as pessoas em volta: um bando de garotos crentes, interessados em informações de um garoto, morto a mais de uma década, e que certamente não conheceram.

No meio de minha explanação, Jussara, uma das moças que vieram na segunda vez, me interrompe, apontando para um casal de velhinhos que nos observava. A senhora de cabelos totalmente brancos, tinha marejados os cansados olhos azuis no rosto branco e redondo, típica mama italiana, e nos encarava num misto de incompreensão e indignação.
Olhei para os garotos e imaginei que ela poderia estar aborrecida por algum dos garotos estar de pé sobre as tumbas em volta do túmulo de Perim(Poderia ser de algum parente dela). A única coisa que me veio, falei:

- A senhora quer passar por aqui?
- O que vocês estão falando de meu Gui!!! - explodiu ela, enquanto as lágrimas desciam e apertava a bolsinha de moedas com as duas mãos.
- A senhora é mãe do Gui! – engasguei. Embora Aguinaldo tenha freqüentado minha casa durante anos, eu nunca tinha entrado na casa onde morava, e não sabia quem eram seus pais. Só os reconheci nos olhos da mãe, e em seguida, no semblante ovalado e careca que surgiu franzino por trás dela: o pai, seu Perin estava lá também, e lembrava muito meu amigo.
- Eu vim apresentar meu amigo para esses garotos. Não quero que seja esquecido...
- Quem é você?
-Seu filho me chamava de Soró...
- Você é o Soró!! – sorriu ela -Meu filho falava muito de você. Ele te amava...- Aquela senhora começava a tremer.
- Nós gostamos de conhecer seu filho... – disse Jussara, pegando em sua mão – Nos conte como aconteceu...

A mulher sofrida começa a contar como foram as últimas horas de seu filho caçula, cada detalhe, cada palavra, cada momento, enquanto a mocidade permanecia muda, ouvindo cada palavra. Acabou que o outro filho - aquele que vira aos prantos no velório – morrera um ano depois, assassinado.

Seu Perin, após isso, me agradeceu muitas vezes. O casal tinha agora em seu semblante uma espécie de alivio, como se filho, afinal de contas, não estava tão morto e esquecido assim.

Aquele dia ficou guardado em nossas almas. Muitos daqueles jovens, hoje casados e com filhos, reservam esta história para contar para eles.

Soube depois que Mama faleceu dois meses depois. Foi o genro que me contou, quando o encontrei ao acaso, num condomínio onde um amigo morava. Também me disse que ela parecia mais aliviada, mas não sabia por que, nem o que aconteceu no cemitério naquele domingo, ou mesmo o que eles faziam lá justamente quase quinze anos depois, numa manhã de domingo, justamente quando um grupo de jovens, orquestrados por um maluco, resolveu fazer uma homenagem.

4 comentários:

  1. O neguinho pra falar...

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  2. Me emocionei muito ao ler este post!!

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  3. Carara Júuuuu

    Realmente extremamente emocionante!!!

    Dia Inesquecivél para quem esteve lá!!!

    Bons tempos né.... Sinto saudades... 2001 !!! Nuosssass acho que cresci... tantas coisas mudaram... responsabilidades...

    Junior valeu por esses dia viu!!!

    PS: Tô chorando saco!

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  4. quem disse que gostávamos de te ouvir?rs

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