30 de setembro de 2009

Minha Experiência como Levita


Assim que fui para Igreja, souberam sobre meus “dotes” musicais, trazidos de uma época que toquei nas noites, a muito, muito tempo atrás. Não demorou muito para ganhar um convite e um título:
Levita.
Na época não entendia muito bem o que ser tratava.

Pensei ser título que se dava para músicos daquela religião, já que fui “Ogan” em um centro de Umbanda (tocador de atabaque), mas meu pastor, que é das antigas, insiste em dizer que eu não havia trocado de religião, já que Jesus não é uma religião. Mesmo a terminologia “levita” parecia não soar muito bem para ele. (Isso até hoje).

Nem sempre os músicos  tiveram essa “marca”.
Parece que foi a Renascer que “lançou” isso em meados dos anos 90, junto com o termo “apóstolo”, para designar algo maior que um simples pastor (como disse Pr. Gondim, eles nem aceitam ser anjo da igreja: é de arcanjo prá cima!).

Mas como gostei deste Jesus, resolvi me aprofundar um pouco mais no quesito “Levita” e saber minhas funções e tarefas nesta nova vida:
Entrei em pânico!
Eles nem desconfiavam, mas não sou judeu! Sou nordestino, meu pai é descendente direto de índio potiguar. Pensei que pudessem estar se referindo – talvez – a uma possível reencarnação, mas isso é de outra religião, e eu já não tinha religião.
Tenho meus afazeres seculares, trabalho com informática. Como cuidaria de um tabernáculo, ou mesmo de um templo em Jerusalém . Não tenho grana nem passaporte para isso!(descobri depois que o templo já era, conforme o mestre disse que seria).
Não guardo sábado. Meu emprego exige que eu trabalhe.
Não estava afim de me circuncidar: uma vasectomia já havia bastado, e não queria aproximar nada cortante nesta área para o resto de minha vida.
Bodes, cabras e outros bichos: teria que jogar este sangue no povo. Por que raios eles iam tão arrumados, se seriam melecados pelos sacrifícios? (Ora, no Candomblé, quando se entra no Roncol, coisas sacrificiais são exigidas: raspar cabeça, ficar nu, fazer cortes e símbolos na pele,se alimentar de comida de “deuses”...).
Não gostei também do modelito do Umim/Tumim, nem da tal estola sacerdotal. Não combinava com o sapato.
Mais adiante na Palavra, já no Novo Testamento, descobri que dois dos nossos "levitas" – que já nem sabiam por onde andava a Arca da Aliança Original - não destas réplicas que gostamos tanto de levar – levaram meu Senhor para Poncio Pilatos crucificar: Anás e Caifás. Seriam eles guitarristas? Pior: também não eram descentes de Levi – como eu  não sou– mas sim, um tal de João Batista, filho de Zacarias, que nem no templo ia. Ficava no deserto, purificando o povo, e chamando ao arrependimento.
Outra coisa estranha:
Levitas não tem direito a herança financeira.
As outras tribos tem que sustenta-los, mas as terras não são deles. São cidades cedidas por parentes. Estas cidades, inclusive, por Lei Teocrática, são refúgio de assassinos fugitivos. Nelas, os matadores não podem ser condenados.

Foi uma vergonha quando cheguei para tocar com gravata e estola sacerdotal. Meu contra-baixo, melado de sangue (tinha que ungir o instrumento, oras!) deixou de funcionar.
O nojo se via na cara dos irmãos. Pareciam não entender o que eu havia feito. Será que era o dia do Ion Kipur?
Tentei me explicar, com os grifos que havia feito na bíblia, mas eles sempre me olhavam como se houvesse alguma coisa oculta nas entrelinhas que eu não tinha absolvido.
Novo convertido faz dessas...

Quase duas décadas se passaram.
Ministros de louvor se multiplicam, e se aperfeiçoam em diversos “mercados fonográficos”.
Os músicos não aceitam apenas a herança oferecida: sua fama tem preço, sua unção tem que ser recompensada, seu talento há de ser reconhecido como decreto divino, seus mega-shows são disputados a tapa por líderes religiosos, que como bons administradores, prospectam as possibilidades de retorno de benção em dólar ou traveller checks.

Não existem levitas levando arca alguma.
Existem músicos tocando em igrejas, sons com temas relacionados à alguma pregação cristã, e que se der “sorte”, será uma boa fonte de renda para aquele que o divulga. Existe gente tentando alavancar carreiras através deste mercado “gospel” que não para de inchar.
E existe gente sincera, bancando tudo isso.

Um comentário:

  1. "(...) e não queria aproximar nada cortante nesta área para o resto de minha vida". KKKKKK

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