15 de setembro de 2009

Naquele dia...

Foi no dia anterior que recebi o convite, por telefone, para estar dirigindo o louvor num ponto de pregação, que segundo a irmã Maria José, Deus estava abrindo para ela.
Seria na capelania de um hospital, na ala das pessoas mais doentes.
Levei meu violão, e lá fomos, numa tarde de sábado, repartir um pouco de nosso dom para aquelas pessoas.
Estava equivocado. Fui para aprender.
Fui meditando sobre versículos que poderia recitar, ministrar algo sobre aquelas pessoas durante o culto... mas não havia palanque (púlpito) para o show, não havia equipamentos adequados (não fosse meu violão velho, não haveriam instrumentos musicais).
A "plateia" era constituída por doentes terminais em meia dúzia de leitos espalhados por um corredor de uma novo hospital público no ABC Paulista.
A irmã nos conduziu até os quartos, não sem antes cumprimentar as enfermeiras da ala:
- Como está?
- Tudo bem? Veio fazer seu culto?
- Sim. Gostaria de orar pelo Florindo...
- Ele faleceu na quinta-feira...o Elidio também...descansou...
Maria não se abateu. Ficou parada no corredor, onde mostrou os quatro quartos que poderíamos acessar, logo depois de uma prece de agradecimento, pela imensurável oportunidade.
Não me estenderei muito em relatar ainda nestas linhas o que se passou naquele dia.
Muitos de nós, que se auto intitulam cristãos-evangélicos, preferem lugares melhores para estar, e a a la dos cancerosos esquecidos não era este lugar.
Logo na entrada, um senhor com o rosto deformado veio alegremente a nós, com sua bíblia desgastada, cumprimentar a velha conhecida e mostrar os comentários que havia anotado numa passagem do Evangelho de João. Maria logo nos apresentou o novo amigo.
Este homem, que mal entediamos o que falava devido a diversas cirurgias pelo rosto, causadas pelas muitas remoções do câncer que carcomia-lhe a face.
Como fiquei indignado a partir disso
Como as lágrimas e a ira emergiram em mim, silenciosamente, com o que vou relatar agora.
Maria José queria fazer-lhe uma oração, e ele, acanhado, não aceitava. No que ela insistiu, questionando a recusa, ele responde:
- Não tem sacrifício... - disse acanhado.
- Que sacrifico? - inquiriu.
- Na minha igreja, aprendemos que toda obra sacerdotal deve ser precedida de um sacrifício, e eu não tenha nada o que ofertar...e sacando a bíblia levou-nos a versículos do velho testamento, fora de contexto, fora de propósito, ensinados pelo pastor que não mais vira,desde que ficou doente.
Ele foi de uma "igreja" tanto tempo, e por conveniência dos cofres da mesma, omitiram que o sumo sacrifício já tinha sido feito pelo Sumo Sacerdote.
Naquela hora, só lembrava de um trecho de uma antiga mensagem, pregada por um pastor pentescostal, berrada com o dedo em riste:
"...mas naquele dia, dirão..."
Sim: Naquele dia... o dia onde a Justiça será feita, e o sorriso malicioso dos chacais e lobos se desmancharão de suas bocas, e pranto e ranger de dentes substituirá a riqueza de seus cofres.
Ah...naquele dia...
Zé Luiz

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