27 de outubro de 2009

De repente, o Fim

Calafrios me invadiram quando Lilian, que não via a muito tempo, contou-me sobre seu irmão, o cabeludo Marcelo.
Conheci-os a anos, quando trabalhávamos na mesma empresa, e Marcelo, já conhecido pelas longas madeixas loiras, começava como office-boy, indicado pela irmã que trabalhava em outro departamento.

Diz que o tranqüilo rapaz, já com seus vinte e três anos, se preparava para voltar para casa, descansar para um novo dia de trabalho. Se despedia da namorada sentada a seu lado no sofá, quando , no meio de um assunto banal, pende com sua cabeça para trás, com seus olhos fechados, para nunca mais abri-los.
Um inesperado AVC totalmente insuspeito finalizou precocemente e de forma instantânea a existência do rapaz.
Não houve tempo para considerações finais ou acertos de contas, ficando a sensação inaceitável de um precioso provérbio escrito pela metade, mas com um ponto final imperativo, inegociável, que não respeita as perguntas e necessidades daqueles que ainda ficam.

Uma velha canção de Belchior tem uma frase interessante:
"...Mas se depois de cantar, você ainda quiser me atirar, mate-me logo! À tarde, às três que à noite tenho um compromisso e não posso faltar por causa de vocês..."

Por mais que tentemos negar, somos criaturas feitas para continuar existindo. Nossa mente, como no refrão de "Apenas Um Rapaz Latino Americano", continua aguardando um próximo comando, uma próxima ação, um próximo passo, mesmo com a certeza que não existirá vida neste corpo daqui a alguns segundos.

Entre os mortos do atentado de 11 de Setembro, algumas cenas ficaram gravadas para sempre na retina da humanidade. Uma delas, poucas vezes transmitida, mostrava um grupos de amigos, pulando simultaneamente, de mãos dadas, para se espatifar no meio dos destroços do World Trade Center. Apesar do caos, tentaram dar um sentido ao fim inesperado daquela trágica manhã,

Conta-se que um condenado à morte esperava a hora da execução, quando chegou o padre:

- Meu filho, vim trazer a palavra de Deus para você.
- Perda de tempo, seu padre. Daqui a pouco vou falar com Ele, pessoalmente. Algum recado?

O mais interessante - e ilógico - é nossa falta de urgência em viver, em sorver cada gota de nossas relações, de apreciar cada palavra de um bom livro, cada gargalhada de uma boa piada, aproveitar cada abraço de adeus, cada delicioso sumo de cada fruta.
Talvez por que, no projeto inicial, nossa criação incluía a vida eterna, perdida em nossa atitude adâmica, e quando se tem a eternidade, a pressa é desnecessária.

"Deus plantou a eternidade no coração do homem..."Eclesiastes 3.11

Zé Luís