2 de novembro de 2009

Burro falante e o Profeta Mercenário

A Bíblia tem lá suas esquisitices.
Se vou ter uma relação com a Palavra, partamos do principio da sinceridade entre as partes. Ela é livre para mostrar o quanto e por que sou tão falho. Mas creio que seu autor "intelectual" não ficará chateado com minha confissão: Tem coisas que me são realmente estranhas.

Desde o Pentateuco, os cinco livros iniciais do chamado Velho Testamento (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) até a derradeira e estranhíssima revelação de Apocalipse, deparo com detalhes que me fazem parar e perguntar: O que isso está fazendo aqui?

Um exemplo conhecido (Livro de Números, Capitulo 22) é o caso do Rei Balaque e um legítimo profeta, situado fora dos escolhidos de Israel, Balaão.
O que este profeta legítimo faz fora do contexto da então peregrina Israel? (certamente encontraremos muitos inexplicáveis "Melquisedeques" pela sua história).
O tal rei o convida para lançar maldições sobre o povo judeu e, possam então ser derrotados, mas mesmo sendo muito bem pago para isso, o profeta, por ser legítimo, só consegue proferir o que Deus quer, e não o que o rei pagou para falar. E Deus quer que o povo hebreu receba palavras de benção, e não de mal.

Outro detalhe desta estranha história está ligada ao meio de transporte do profeta, uma jumenta 2.0 com injeção eletrônica. No caminho que Balaão trilha para fazer o que Balaque pagara, foi posto um anjo, da parte de Deus, para passar-lhe a espada(?). O profeta não o vê, mas a mula sim e prevendo o terrível desfecho, por três vezes se desvia, mesmo sendo maltratada por seu dono.
Foi quando a mula verbaliza seu protesto, questionando a falta de atenção aos sinais que ela estava dando, no que o tal anjo se revela, falando em nome do próprio Deus.

Possibilidades aplicáveis:
É possível que mesmo o mais legítimo dos assessores divinos falhe moralmente, assim como é inacreditavelmente possível que Ele use o mais insuspeito dos personagens de uma trama para aconselhar-nos, levantando-o até mesmo entre as pedras.
É plausível que Ele prepare um desfecho terrível para nossa existência, e usar quem menos esperamos como saída para este mesmo desfecho.
Quando o juízo vem, vem a - as vezes - absurda válvula de escape: Uma jumenta, um bêbado, um susto, um bloguinho meia-boca,...
Lutero costumava dizer que Deus usou uma mula, por que não usaria aquela que estava falando?

As esquisitices expostas da bíblia são, para mim, provas de que ela é autêntica.
Quando se procura escrever algo convincente, adequa-se com cuidado os trechos para que não pareçam irreais. Por que um livro proposto como Sagrado, aquele que conta a relação entre o Criador e uma de suas criaturas, deixou-se contar coisas absurdas, mesmo para seus contemporâneos? Expor as fraquezas dos heróis? O povo resgatado é o mesmo que violenta e assassina o Resgatador?
Um escritor bíblico teve como meta a simples ordenança de escrever o que testemunhava, mesmo quando tudo podia ser confundido, absurdo, ou inteligível.
As vezes cantam e não dançamos, contam tragédias e não lamentamos.
Deus faz suas tentativas, nós é que não ouvimos, mesmo quando no lugar da mula, manda seu Filho nos falar.

Zé Luís

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