7 de dezembro de 2009

Legalismo e o Raciocínio dos Carneiros


Zé Luís

Fico irritado com radares móveis.
Aqui em São Paulo eles sempre são vistos - muitas vezes tardiamente - em locais que normalmente não respeitamos os avisos de redução de velocidade, penalizando-nos por tão pequeno delito.
Irritantes, arrancam constantes o dinheiro do desavisado, desatento, despreocupado, não necessariamente nesta ordem, assinando com seus flashes que confirmam o registro da placa de nosso veículo.

Sermos obrigados a reter nossa necessidade de passar de pequenos limites é realmente aborrecedor, ainda mais quando um "dedo-duro" nos delata até quando não há necessidade de redução, não existir perigo, mas o faz por ser máquina, não pensar, apenas disparar automaticamente quando seu mecânismo é acionado.

Certamente, o seguro e bom fluxo do trânsito depende destas regras, e a forma que nos comportamos ao andar pelas estradas brasileiras revela o que somos, e qual a probabilidade de acabarmos estirados (ou estirando) nelas.

Durante anos, a velocidade máxima nas estradas brasileiras foi 80 Km por hora, mas com o tempo, a tal regra foi reeditada devido a melhora que os novos veículos oferecem. Os autores da Lei de Trânsito revisaram seus estatutos, por também estarem sujeitos a estas regras. As câmeras dos radares fotografam todas as placas  por limitarem velocidade, e não pessoas.

A Lei é criada para um bem maior, Ela é feita para o homem, e não o contrário. Muita gente esquece de desfazer regras e costumes quando elas já não nos cabem.

Usando o exemplo das ovelhas, bicho cômico, lembro quando estive a anos no Hotel Fazenda Mazzaropi, e durante uma pausa de um curso que fazia, notei algo interessante: ovelhas corriam em direção a um tronco e em seguida, a outra a imitava, sem uma razão aparente. Faziam isso sucessivamente, lembrando aquela história de contar carneirinhos para dormir. Um caseiro que por ali estava, vendo meu sorriso, mostrou-me algo mais curioso: foi até lá e removeu o tronco que elas pulavam. Os bichos continuavam saltitando como se ainda o tronco estivesse ali.

Legalismo é isso: fazer valer regras e leis é mais importante do que o homem. Absurdo ou não, alguns que tem mentes muito mais lúcidas do que ovelhas - a ponto de comparar sua vida como o voar de uma águia - continuam pulando troncos, sem questionar o porque disso, principalmente quando não existem mais. E pior: muitos fazem disso sua ministração, seu ensino, sua profissão.

Quantas punições e disciplinas por regras descabidas estão acontecendo neste momento? Seus delitos são as coisas mais absurdas: roupas, adereços, cabelos, esportes. Outros por serem rebeldes e se recusarem a parar de pensar, o que ameaça esses doutores de coisa nenhuma.

Se cada vez que um motoqueiro em São Paulo desafiasse as Leis da Física ou mesmo as do bom senso,  fosse punido com uma eventual queda, aumentaria - e muito - a população que freqüenta institutos de fratura, mas jamais faria que o ímpeto humano parasse com suas imprudências.

Por isso a Lei é ineficaz.
Ela é o limitador que nos mostra onde foi que passamos do limite, e muito seriam as fotos e as multas que tiramos, por dia se nossos erros fossem assim registrados. Precisamos desta Graça que a vida oferece, quando não nos derruba a cada delito, sem queremos agirmos com a prudência de quem pula troncos onde eles não mais existem.

Precisamos de misericórdia, por mais que  nos incomode.