22 de dezembro de 2009

Pais, Filhos e a liberdade de Escolher

Zé Luís


Ano que vem meu primogênito faz dezoito anos.
Nem parece que tanto tempo se passou, e não sei como alcançou minha altura e peso em tão pouco tempo (ambos precisamos de uma dieta "anti-barriga").

O garoto estava trabalhando até pouco tempo, e com um ano de serviço, secretamente, comprou uma moto. Não quero aqui defender ou repudiar o uso de motocicletas. Sou pai, e com nossa preocupação típica, fica difícil aceitar que um dos meus "bebês" ande por aí montado neste troço, tão conhecido no trânsito paulista por seus constantes acidentes.

O detalhe é que, por ser menor de idade, não possui habilitação ou mesmo autorização para te-la em seu nome. Esse detalhe fez com que revelasse a compra, já que o vendedor só concordou em ceder-lhe a moto se alguém da confiança dele passasse em seu nome, que, com não pouca relutância e contrariedade, acabou sendo eu. Mas tinha minhas condições para concordar com tal feito:

"Que ele não utilizasse-a até que estivesse com sua carta de habilitação em mãos"

Ele concordou de pronto. Falta um mês para sua maioridade.

Não demorou muito para a mãe dele perguntar por que não escondi a chave, ou mesmo sugerir correntes para travar as rodas, o que me recusei. Sei quem são meus filhos. Este, em específico, se vangloria de sua maturidade, e se aborrece se questionado, não que ser tratado de nenhuma outra forma que não seja a maneira que tratamos pessoas responsáveis. Como típico adolescente, exige ser tratado como adulto, usando gestos infantis.

Deixar a chave, os documentos a mostra, pode ser interpretado como uma isca, uma tentação. Mas vejo como a chance para que perceba quem ele é. Sei que é muito esperar que não pegue a chave, e vá dar uma volta no quarteirão (inicialmente). Eu sei. Quem não se conhece é ele, quem não admite as próprias fraquezas e falhas é ele. Ele argumentará que sabe o que faz, quando já provou o contrário(sim: ele pegou a chave e foi bem mais além que um quarteirão).

Essa é a liberdade de Deus dá a todos. A Lei é para crianças, que não sabem lavar as mãos antes das refeições, levantar ao toque do despertador, ou cuidar de descansar o corpo e alma em períodos regulares.

Antes de existir a Lei e queda, existiu um paraíso, e dentro dele, uma forma de perdê-lo. Era nossa chance de dizer a Deus que cansamos daquilo. Se não houvesse a lacuna da imposição, estaríamos presos a eterna busca dela, estaríamos sempre imaginando como seria extrapolar a vontade do Pai, se fosse possível.

Deus não fará o que você tem que fazer, não falará as palavras que só você tem que declara, não afastará você daquilo que te derruba, se você pode se afastar sozinho. Isso não nos faria bem.
Ele ressuscitará Lázaros, mas não removerá pedras de sepulcros.

Nem esconderá as chaves do mal em sua vida: se o fizesse, não seriamos verdadeiramente livres.

Quanto a meu filho, assim que chegar em casa, escondo a chave, acorrento a moto, desmonto o motor dela. Garoto desobediente, Jesus...