16 de dezembro de 2009

Testando a Máquina do Tempo

Zé Luís


Acordei de madrugada para ir ao banheiro, coisa cada vez mais freqüente quando a idade chega. Ainda tinha mais uma hora até que o despertador tocasse. Não parecia que voltaria a dormir, mas consegui até sonhar. Sonho que me deixou intrigado:

Um amigo estava em casa, mostrando seu projeto experimental: um pequeno aparelho, capaz de viajar pelo tempo. Como clichê de filmes de "sessão da tarde", deu-me uma espécie de relógio que atei ao pulso, e de uma hora para outra, voltei mais de vinte anos no tempo, junto com toda a família, na igreja que hoje freqüento.

Não reconheci quase ninguém daquela época: todos eram jovens. Procurei entre os músicos, os atuais amigos de longa data. Embora tenha visto alguns, então bem moços, eles não sabiam quem eramos. Perambulávamos pela deliciosa algazarra pré-culto que se forma quando os irmãos se reencontram e começam a preparar seus instrumentos, colocar a conversa em dia, fazer acertos de futuras festas e congressos. Era estranho voltar ao passado de um lugar onde se é íntimo, e não ser reconhecido por ninguém.

Foi então que reconheci um dos pequenos garotos: era Fabrício, que hoje, já adulto, causa muita decepção a seus pais, devido a seu comportamento tolo. Aproximei-me do menino, que ainda tinha aquele ar inocente das crianças. Com um leve sorriso, não estranhou quando chamei por seu nome, e comecei a tagarelar de forma estúpida e inevitável:
- Oi Fabrício. Você não me conhece... ainda. Por alguma razão, vim do futuro. Queria dizer para você pegar mais leve com seus pais quando ficar mais velho. Você vai ser bem rebelde...

O garoto me olhava com a complacência de quem ouve um demente, e eu, depois de ter disparado tamanho absurdo, me dava conta da inutilidade de minha advertência.

Foi quando meu caçula alertou que o pastor e sua esposa estavam estacionando seu carro: acabavam de chegar. De imediato, pensei nos filhos deles. Foi naquela época que um se seus filhos morreu, vítima de um acidente de moto. Embora tenha conhecido-os anos após a tragédia, vi aquela mãe chorar muitas vezes por sua perda. O moço, recém casado, deixou uma viúva bem jovem, sem filhos, quando sua banda evangélica começava a fazer sucesso.

- Tenho que avisá-los sobre a tragédia! Posso evitar que ele morra! - pensei. - Quanta dor poderia evitar com essa mensagem!

Estranhamente, um pensamento sóbrio e lúcido - tão raro em minha alma - me invadiu:
- E a viúva, que hoje já está muito bem casada e com dois lindos filhos? O que será da vida daquele atual e apaixonado marido? Os garotos que jamais existirão? O que fazer daqueles que cresceram com aquele falecimento, quando a banda se desfez e cada um seguiu seu rumo, fazendo-se pastores sérios, excelentes cantores e reconhecidos profissionais da área de sonoplastia?

Nenhum pai deveria enterrar seus filhos, mas essa é uma regra que a gente cria para ver se Deus acata como obrigação, e nosso coração não sofra dor tão pungente. (embora o coração Dele não tenha sido poupado).

Embora me parecesse cruel, desperdicei a chance de "melhorar" o destino alheio: percebi que o tempo mostrou ótimos frutos naquela tragédia, tratada de forma magistral pelo Senhor e seus filhos. Regulei o relógio do tempo e, sem saber se voltaria na data certa, acionei-o. Eram 6:00 e o despertador tocou.

Será que existe algo que realmente pode se corrigir se pudéssemos voltar no tempo? Desculpem a teimosia, mas ainda creio que sim...