4 de janeiro de 2010

Alguém Digno de Ser Esperado


Zé Luís

"Quando soube que voltaria em breve, senti-me incomodado, assim que cheguei em casa.
Sei que moro provisoriamente naquele lugar, mas não é razão para deixar a casa naquele desleixo: deixei a infiltração embolorar os móveis, as teias se acumularem nos cantos do teto.
De repente, aqueles detalhes desimportantes ganharam uma atenção que normalmente não dou. Comecei a enxergar sujeiras acumuladas em louças, pias e roupas, e comecei a imaginar o vexame quando ele chegar e ter o desgosto de presenciar tamanha porcaria.

Corri a comprar tinta e pintei a fachada, portão, dando mais atenção aos cômodos internos na sua manutenção: esfreguei bem roupas e pratos, comprei comida , preparei ótimas refeições: me dei conta que meus filhos estavam raquíticos, famintos. Verifiquei que não era apenas fome: eles andavam tristes com minha ausência, minha falta de tato, minha imbecilidade.

Embora o dono da casa seja como um pai para mim, e nunca me negou nada, não foram poucas as vezes que não entendi o porque de suas ações ou do silêncio diante de certas situações que até julgo ser de sua responsabilidade.

Mesmo assim, a simples menção de recebê-lo me causou uma mistura de euforia com pavor. Não sei se me faço entender. Só penso em manter a casa arrumada até que ele venha.

O problema é que começa a demorar, mas o costume de procurar manter a casa arrumada para sua chegada se fez hábito em minha vida, o que fez melhorar minha vida e muito. Logicamente, há dias que levanto indisposto, e nem capricho tanto na refeição da família, nem me apercebo que o mato do jardim já encobre as flores. Dá a impressão que eles nasceram de um dia para outro. Mas o sentimento ressurge e procuro deixar as coisas no lugar, novamente"


Muitos falam sobre a igreja primitiva e a devoção que fez a diferença no evangelismo mundial. Mas são poucos que creem que este sucesso todo estava na convicção de que Jesus voltaria ainda naqueles dias, e este sentimento tão real fez que muitos se desfizessem dos bens, e vivessem apenas para aguardar o glorioso retorno.

Creio que a melhor coisa que Jesus poderia ter feito em relação a seu retorno foi o que fez: encobrir a data de sua volta, mesmo com o prejuízo que isso parece causar.

"Louco! Esta noite pedirão a sua alma!" - disse Deus ao rico que não pensava que sua existência findaria aquela noite, e nunca pensava da forma que tinha de pensar. Isto é que contava a parábola do Mestre. O rico calculava que o amanhã ainda existiria. Todos somos assim.

Crer que a volta de Cristo pode acontecer enquanto escrevo este artigo, ou enquanto você o lê, faz com que nós tornemos urgente o que há de ser feito. Quando penso que tenho todos os amanhãs da existência , me dou ao louco luxo de transferir indefinidamente o bem que posso fazer, mas não faço por crer que ainda tenho tempo. Deixo de perdoar, de pedir perdão, de amar.

Alguém pode dizer: muitos esperaram por Ele, mas Ele não veio: É verdade.

Mas os que viveram como se Ele estivesse a porta, fizeram de sua vida algo melhor, com a disciplina de quem mantém a casa caprichosamente arrumada para receber alguém que se ama muito e pode chegar a qualquer momento. Que o Mestre venha ou não ainda nesta geração, que nos encontre arrumados, com lanternas devidamente carregadas.