25 de janeiro de 2010

Quando Eles são os Donos da Razão

Zé Luís


"...Se você aceita o adultério como simples pecado, de duas, uma: ou você nunca conheceu o Evangelho, ou comete este pecado e por isso o aceita. Você por acaso anda ouvindo Caio Fábio? Compactua com as idéias daquele desviado? Já vi tudo, já vi tudo..."

Do começo:
Era final de expediente de sexta, quando encontrei na saída do serviço um velho conhecido: Roberto. Ele aguardava uma amiga, que trabalha no mesmo prédio que eu. Ele a levatia à oficina onde o carro dela estava.

Ele, que passara por uma crise em seu casamento que terminou no adultério da parte dela, e separação. O casal, que conheci nas lileiras da Igreja, passavam por brigas seguidas, e numa destas intermináveis discussões, outra pessoa entrou na vida dela, impulsionando-a a abandoná-lo.

Isso foi a um ano, e não me darei o direito de descrever a situação dse forma mais detalhada, por vários motivos: sei da versão que apenas uma parte conta: justamente da pessoa traída, o pastor, a qual conheço o gênio turrão, teimoso, difícil. Hoje, com cinquenta anos, confessa que não nasceu para trabalhar confinado a horários fixos e lugares. (um dos motivos que fazia a ex-mulher se entristecer e revoltar com as freqüentes demissões do ex-marido).

Antes de me afastar dele (compromissos profissionais e minha inabilidade em dar murro em ponta de faca) sempre tentei convencê-lo que suas convicções sobre as próprias idéias em relação aos outros poderiam estar equivocadas. Sua teimosia em querer que o mundo se adapte às suas concepções sempre me aborreceram, ainda mais quando ele tem a versão “robertiana” da Palavra, onde as coisas orbitam em torno do que ele diz ser a correta interpretação.

- Estou vivendo uma das melhores fases de minha vida... - comentou ele.
- Que bom que percebeu que esta separação póderia trazer algo positivo... - pensei alto.
- Sim! Eu sou salvo e livre. Ela está presa ao pecado, por viver ainda com aquele cara. Ela não é mais salva...adúltera...
- Ela não é menos, ou mais, pecadora que ninguém...- tentei comentar.
- Iiiiiiiiiiiiiiiiiih...lá vem você com este papo. Preste atenção: Ela adulterou, não está mais na presença de Deus. Eu sou livre para fazer o que quiser, ela não. Estou na presença de Deus, ela não pode estar. É isso e pronto!
- Mas não está escrito que aquele que não tem pecado mente?
- Ela adulterou! Não entende? Sei que sou pecador...mas falamos aqui de traição!!!
- Mas você espera que a mãe de seus filhos queime no inferno eterno por que não é capaz de perdoa-la?
- Eu já perdoei... mas ela está em adultério e tem que pagar...

Foi então que pronunciou a frase acima, além de me chamar de desviado, e tudo mais que um homem rejeitado fala quando é contrariado nas convicções pessoais que tranqüilizam sua ira. Ele não percebe o quanto erra, o quanto fere, o quanto agride, o quanto despreza a opinião alheia (equivocada ou não).

O mais interessante, e talvez, mais trágico, é que este homem ensina estas condutas em seu redio de ovelhas evangélicas. Ensina: salvo agora, mas em um tropeço, em um erro, num vascilo, estamos fora da promessa da Vida Eterna, e se morrermos neste intervalo, Deus nos rejeita, nos condena, não mais nos ama, não mais nos quer.

Se gabam em mostrar o quão fortes são em sua teimosia, e que sua rígidez de alma é a qualidade dos vencedores. Ele não explica e não entende por que a esposa chegou a este ponto, e talvez nem queira explicação realmente. Ele só sabe que ele fez tudo certo e deu tudo errado. E a culpa é dela, adultera.

O que ele não admite é que talvez (eu disse talvez) possa ter culpa nesta separação. Talvez a sua esposa tenha o alertado sobre ser contrária a sua opinião, talvez ele a tenha atropelado em argumentos, fazendo-a calar quando ela tentava salvar seu casamento. Mas isso já não importa, por que o tempo passou, o casal já não existe mais. Ele vive o melhor tempo de sua vida, e ela vive na espera de um inferno eterno.

E eu fico mais pensativo, imaginando como as interpretações da Boa Nova pode se transformar num mapa para o inferno