19 de janeiro de 2010

Um Irmão Suícida e o Sangue do Cordeiro

Zé Luís

Semana passada um irmão da igreja foi com sua ex-esposa a minha casa. Pelo tempo que nos conhecemos, nós já deveríamos ser amigos que não precisam de permissão para vir, mas a igreja só nos fez irmãos de igreja, e não irmãos em Cristo.

A idéia de vir foi da sua ex. Desespero de causa: procurava uma saída para algo -aparentemente – irremediável. Ele notificou que tentaria o suicídio mais uma vez.

Mas por que me procurar? Não sei o que dizer numa situação destas. Acho inútil lições de moral ou palestrar sobre o valor da vida, ou como supostamente será a eternidade de uma criatura que pratica este ato. Pregar a Palavra também não me parece a coisa mais sabia, já que as pessoas que conheci com esta determinação são do meio evangélico. Já tentei argumentar, mas normalmente minha decolagem não passa de um amontoado de bobagens, que, creio eu, só devem aumentar a vontade da pessoa em cometer o ato (ou homicídio, afim de me calar).

O desejo de não existir parece ser maior que Deus. O sentimento satânico da autodestruição seduziu um terço dos anjos perfeitos. Por que não nos atrairia em um ou outro momento da existência, quando tudo perde o sentido?

O irmão veio. Não o via há muito tempo. Havia engordado, e com sua altura, parecia muito maior do que já era. Além de seu peso, seu olhar também havia mudado: era vazio como o de alguém que perdeu alguém muito amado. Não falava, não sorria.

Chegaram na hora da janta. Foi com resistência que juntou-se à mesa conosco, mas o fato de ter aceito causou um ar de surpresa na ex, que observava cada reação do pai de seus três filhos.

Após a refeição, chamei-o ao terraço. Queria ouvir sobre o que estava sentindo. Sobre sua vida pregressa, o conhecimento é público: Após diversas brigas, saiu de casa. Tinha uma namorada e uma nova casa, muito melhor que a deixada a mulher e filhos, habitada também por ratos e baratas.
A jovem mulher tem problemas de peso, o que dificulta na hora de arrumar um emprego de doméstica. Além disso, de seus três filhos, apenas a mais velha passa dos dez anos de idade. Os outros dois ainda dependem dela para tudo. Mesmo assim, ela insiste:”Posso não ter mais marido, mas meus filhos tem que ter um pai. Quero-o bem, e com saúde...”

Estranhamente, não o julguei. Em nenhum momento imaginei em falar que talvez merecesse algo parecido com a morte, só pelo que permitia a família passar. Mas não cabe a mim julgar: a história ainda não acabou. Pelo menos não até eu ter postado esta mensagem...

A garoa era fina, quando começou a falar sobre sua falta de desejo em viver, e a indiferença entre existir ou não. Estava oco. Contou-me sobre a primeira tentativa, quando ingeriu varias cartelas de comprimidos anti-depressivos, e completou a “refeição” com mais de vinte calmantes que tomava para dormir. Lembrava aquele dia em “flashes”, e quando foi acordando, estava na casa de seu pai. Este tinha encontrado-o desmaiado. Sua namorada também chegou enquanto o pai o carregava para o carro, e choravam em volta do corpo desfalecido.

O estranho desta história é que, como procedimento, ele teria que ter feito lavagem estomacal. . Ele não fez, e sua família o levou sem perceber o que ingerira medicamento suficiente para matar um boi.

Eu, que até então só ouvia, lembrei do tempo em que auxiliava minha mãe nas “giras” de umbanda.
Para quem não conhece, as celebrações espíritas são “temáticas”: caboclos, exus, pretos velhos, o povo das águas, e por aí vai. Uma das entidades, da linha dos Marujos, já chega bêbado, deixando o médium que o incorpora com aspecto de total embriaguez.

Mamãe, que por problemas de saúde, não pode beber meio copo de cerveja, quando incorporada, chega a tomar 2 litros de cachaça em segundos, sem nenhum cheiro ou efeito nocivo após a saída da entidade. É como não tivesse bebido absolutamente nada.

Era muito semelhante ao caso de meu irmão. Onde foram parar os diversos comprimidos ingeridos pelo organismo?

E com um agravante: Como uma vida, batizada, atuante na obra (ele já fora músico, cantor, operador de mesa de som, fez peças de teatro) estava agora a mercê da influência de uma entidade externa, contraria a vontade de Deus. Citei, quase que sistematicamente:

“O sangue de Cristo nos purifica de todo o mal...”

Os olhos deles começaram a perder o foco novamente. Sua atenção fora cortada: Já se armara para ouvir mais um sermão evangélico, mas não era isso que eu tinha. Não era uma palavra mágica que resolve todas as coisas. Era uma noticia. Não resisti e comecei a tagarelar, como se soubesse do que falava:

“Passover “ significa páscoa em inglês. Significa “passar sobre”, “por cima”. Creio que tem relação com a 10ª praga do Egito, onde o anjo da morte viria, levando todos os primogênitos do país. A única forma de não levar aquela vida era pintar os umbrais das portas com o sangue de um cordeiro, o que funcionou perfeitamente: a morte respeitava a marca, não levava ninguém daquela casa.

Respirei um pouco, sem percebermos que a garoa engrossara:
Quando João Batista viu Jesus apontou dizendo: Eis o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo. Como pode você, que sente toda a culpa do mundo – com razão – crêr que isso é suficiente para deixar que este maldito anjo entre em sua vida e te convença de morrer? O problema de pecar é a culpa que nos faz aceitar essas mentiras sussurradas como pensamentos próprios... Mas não é o dono da casa que intimida a praga: É o sangue no batente... Sangue que você tem quando resolveu andar com o Cordeiro...

Já não observava suas reações. Tagarelava empolgado com o que ouvia da minha boca, mas por sorte de meu ouvinte, a chuva engrossou, e tivemos que dar uma pausa na conversa, que perdeu o fio da meada assim que entramos na sala e deparamos com a bagunça de filhos, tv estridente, mulheres matraqueando, e o meu micro travando, bem quando ia postar algo novo.

Naquela noite não dormi direito. A imagem daquele homem cansado não saia da minha cabeça. Fui trabalhar pensando apenas na pessoa: não em seus atos, pecados e justiças. Apenas nele. Só cabia a mim interceder.

Dias depois recebemos a informação: naquela noite,ele dormiu na casa da ex, sem precisar dos calmantes. Não falava muito, mas aquela palavra, segundo ele, ficou reverberando dentro de sua alma. A anos na igreja, não sabia qual era a importância do Sangue do Cordeiro em nossas vidas. Sua noção de Justiça o impelir a se destruir, mas não se apercebeu o que a frase citada tinha uma razão, uma informação, uma boa nova.

“Nunca fui instruído sobre este sangue...” - disse o crente com 20 anos de igreja.

Naquela noite ele finalmente entendeu. Até hoje, 19 de Janeiro de 2010, uma semana depois, ele ainda não se matou. A História não acabou ainda...

3 comentários:

  1. poxa, que história dolorida, irmão Zé Luís!

    entendo parte do que você passou pois já tive que ajudar pessoas em situação parecida, que inclusive já haviam tentado o suicídio. Graças a Deus, nenhuma delas concretizou o ato, e lá se vão muitos anos que não as vejo, mas sei que estão bem. Espero em Deus que seja este também o caso que você enfrentou. Creio que Deus já deu o recado ao rapaz através de você, mas s eventualmente ele voltar à sua presença, investigue se não é o caso dele ter acompanhamento médico-terapêutico, pois depressão braba é uma doença terrível, se é que ele já não está tratando, como me pareceu que estava.

    De qualquer modo, glorifico a Deus por você ter sido instrumento dEle nesse momento tão difícil.

    Graça e paz!

    ResponderExcluir
  2. Como relatei, fui uma espécie de mula de Balaão nesta história, Hélio.

    Minha relação com este povo foi sempre o esteriotipo do sujeito brincalhão, que normalmente é chamado para animar festas ou contar causos onde passei por situações ridículas.

    Acho q o impacto de me ver falando sério deixou meu irmão desconcertado. No mais: sim, ele faz tratamento, inclusive os medicamentos q ingeriu são do receituário médico, com fortes doses de anti-depressivos e tuso.

    Um abraço.

    ResponderExcluir
  3. Meu querido irmão Zé Luís,

    eu vejo que existem algumas situações muito específicas quando invertemos os "papéis" que representamos na vida (sério, brincalhão, etc.) como manifestações de Deus para nós e para quem nos ouve, ou seja, desempenhamos este santo "papel" de profetas sem nem nos darmos conta de que estamos fazendo isso. A Deus toda a glória!

    Abraço!

    ResponderExcluir