28 de fevereiro de 2010

Coisas que meu filho não entende

Zé Luís

Ouvi a lamentação ainda de manhã, enquanto tomava banho.
Era meu caçula, na sala, murmurando sobre o triste destino que sua mãe havia lhe imposto: dobrar todas as meias trazidas do varal para sala, para que ele, do alto de seus quase dez anos, fizesse a árdua tarefa enquanto assistia TV.

- Eu não tenho que fazer isso “pros” meus irmãos.- resmungava – eu aqui, trabalhando “pros” folgados, que ainda dormem...só vou dobrar as minhas. Que droga. Eu não quero trabalhar prá eles...

A ladainha se prolongou nesta linha, e só parou porque, ainda na porta do banheiro, de toalha, perguntei o que se passava, no que ele, com os olhos marejados, repetiu o triste destino que sua mãe impôs, dando o veredicto:

- Só vou dobrar as minhas meias, e não vou tocar naquelas cuecas!
- Imaginou se fizéssemos como você, e só cuidássemos de nossa própria vida? Quando eu for comprar comida, só comprarei para mim. As contas da casa? Só pago o que eu gastar. Você trabalhará e pagará seu banho, sua roupa, sua estadia aqui nesta casa...
- Mas eu só tenho nove anos! - protestou, fazendo cara de choro. Continuei:
- Cada um lavará sua roupa, e se ficar doente, terá que se cuidar, irá ao médico sozinho, e terá que comprar seus remédios. Que acha da idéia?

Após uma breve cena de interesse, ele voltou a matraquear as mesmas palavras, reclamando sempre da injustiça de ter que fazer tarefas para os outros e se sentir explorado por isso.

Após o caso, desisti e fui trabalhar imaginando por que era tão difícil convencer alguém de que a melhor maneira de se viver é quando cuidamos uns dos outros. Quando foi que meu caçula aprendeu que o individualismo era sinônimo de justiça?

O pior desta simples história é que a imensa maioria das pessoas é assim. Até aí, tudo bem: o mundo vive a luta pelo mesmo pão, “quem chegar primeiro come”, a seleção natural eliminando aquele que não se sustenta. A extinção daquele para que outro, mais forte, assuma, sucessivamente.

Entre os leões é assim: sempre que um novo leão derrota o líder da alcateia, assumindo seu lugar, passa a noite matando todos os filhotes da ninhada do perdedor.

O que me admira, e até me choca, é ver tantos cristãos vivendo assim. Sua incapacidade de cristãos não repartirem o pão, de não querer viver a partilha de suas vidas. Gente que chama Jesus de Senhor mas quem comanda é seu próprio ego. Se tem que trabalhar para outra pessoa, mesmo que amada, sentem-se injustiçadas, abusadas.

Assim como meu filho, choramingam por ter que dobrar meias alheias, quando poderiam estar tocando sua vidinha diante de uma programação televisiva, ou qualquer outra banalidade super importante.

Não existe vida cristã prática quando nos isolamos, ou mesmo, esperamos que outros apenas nos sirvam. No mundo projetado pelo Mestre, o maior de todos é o que mais trabalha por eles.

Teremos gente pondo a mesa, deixando as roupas passadas, cozinhando manjares, dando instruções gratuitas de como fazer. Esse é o Reino: viver para outros, reconhecer a necessidade alheia e, se possível, preenchê-la.

Quanto ao Lucas, o garoto resmungão, não sei realmente de que forma -e se - terminou a tarefa, mas me tranquilizei ao lembrar do provérbio que instrui a ensinar o caminho ao menino, para quando for homem, continuar nele. Ele tem nove anos e ainda tem chance. E você?