15 de fevereiro de 2010

Um General, um profeta e um estraga-prazeres

Zé Luís

O grande general retorna a casa do profeta, preparado para oferecer uma grande oferta.

Viajara quase mil quilometros em busca de uma solução para seu problema: a cura de sua lepra. Veio por sugestão de sua escrava adolescente daquele mesmo país, que garantiu que na terra de onde fora levada havia esperança para ele.

Por ser influente, o próprio governador do país manda uma mensagem informando as intenções de seu general a seu país, o que faz o governador do mesmo entrar em pânico.

O profeta ao saber do desespero do rei e seu porquê, pede para enviar o estrangeiro a sua casa, e logo que a comitiva internacional chega a sua porta, e convoca a presença do homem de Deus, recebe tratamento daquele homem no mínimo inusitado:

Deixa a celebridade no portão, e não oferece nem um cafézinho. Na verdade, nem ao menos se dá ao trabalho de ir até a presença do militar. Envia o copeiro ao portão com um bilhete escrito em papel de pão, descrevendo a pequena receita: “Sete mergulhos no rio Jordão”.

A indignação e raiva do general era justificada:
“ Eu esperava algum ritual, alguma firula religiosa, que ele me tocasse ou invocasse algum de seus encantos! Me mandou tomar banho! E num rio "meia-boca"! No meu país tem rios que dão de dez a zero neste...Vamos embora! Fui ofendido...”

Mas haviam na comitiva empregados que se importavam com seu líder, e sabiam argumentar que uma missão daquela duração não podia se dar ao luxo de desperdiçar as oportunidades mais absurdas. Quanto mais uma proposta simples como aquela.

O general então vai até o rio, e diante de seu exército, se despe de sua farda, deixando todos ali verem seu corpo nu, coberto por lepra.

Até o sexto mergulho, nenhuma mudança podia ser notada, mas no sétimo, as feridas esbranquiçadas se soltaram da pele, como fosse uma maquiagem emborrachada que se dissolvia em água corrente.

Naamã – esse era o nome do general – quis mostrar sua gratidão da única forma que sabia, já que tinha sua religião na Síria: Ofertas em troca de favores dos deuses.

Eliseu – esse era o nome do profeta – não aceitou nem um centavo, o que deixou-o o récem curado maravilhado, e  seu discípulo indignado.

Foi desta forma que o homem Naamã conhece um deus totalmente diferente:
Um Deus que cura por que pode, e não por que espera algo em troca.
Um Ser que não precisa de estripulias ou shows pirotécnicos para mostrar seu poder. Em um minuto está, e no outro, parece que nunca existiu. Toda a existência é assim.
Deus fiel independe da fidelidade humana para ser ser o legítimo Deus.

O estrangeiro não se comportou como celebridade, foi humilhado, foi tratado como fosse apenas mais um homem enfermo que busca sua cura(o que de fato, era). Descobriu um deus que não constava em nenhum panteão antes conhecido. Sua escrava estava certa no que disse.

Seria bom se a história terminasse aqui, mas a bíblia é feita de finais felizes.

Geazi, o discípulo, em sua cobiça, ignorou tudo o que Deus fez em seu plano, e procura o general com a mentira de que o profeta mudou de idéia e que queria uma pequena paga.

Roubou de Naamã a real impressão do Deus que se alegra em fazer suas maravilhas de Graça, sem méritos, sem valorizações de desempenho. O custo deste ato foi incorporar à sua vida a herança maldita de Naamã: Sua lepra.

Hoje, muitos cobram por favores divinos, sem que eles venham realmente do Céu. Confesso que alguns milagres acontecem, mas a loucura destes "vasos" parece não ter hora para terminar. Quantas maldições incorporam para seu destino quando assim o fazem?

Que Deus tenha misericórdia.