6 de fevereiro de 2010

O Grande Alfaiate e a Roupa Mágica


Zé Luís

Era uma vez, no começo de todas as histórias, uma criação acima das outras criações, que não era feita do que as outras criações eram feitas.

Vermelho - esse era o nome da criatura - ganhou uma linda roupa, para viver num lindo mundo, já que era uma linda criação.

Na linda roupa mágica, inoxidável, “inrasgável”, “insujável.”, o Grande Alfaiate, curiosamente, colocou um remendo totalmente frágil, onde só o portador da vestimenta podia rasgar, e avisou:

“Caso não queira mais usá-la de forma definitiva, você não é obrigado: basta que a rasgue. Mas lembre-se: uma vez rota, não poderá mais ser usada, não mais. Sem ela, não há condições de viver neste lugar, nem existir como vocês vivem hoje, já que até até grama daqui será capaz de ferir seus pés”
Com a roupa voavam, mergulhavam no mais profundo oceano, sem precisar de oxigênio. Corriam e trabalhavam, sem fadiga. Podiam caminhar lado a lado com o Grande Alfaiate e dar nomes sagrados as coisas.

Era como a roupa de um astronauta, mas diferente.
Tinha o poder da armadura do Homem de Ferro, mas era macia , quente, confortável como uma luva, feita para ser eterna, quando modismos não precisavam existir ou ter razão de ser inventado. Era definitiva e portanto, estranhamente satisfatória.

Um dia, os dois portadores da roupa mágica foram visitados por uma criatura linda, mas sem que eles soubessem, ela servia de roupa para o grande Mentiroso, que acusou o Grande Alfaiate de mentiroso, e disse que rasgar a roupa mágica faria deles tão grande quanto ele.

Nus estavam quando o Grande Alfaiate chegou e como disse que seria, notificou sobre o fim dos seus dias, dando lhe nova vestimenta, feitas de material perecível, biológico, animal.

A milênios isso aconteceu, e muitos não conhecem esta história, mas mesmos estes sentem falta delas.

Quantos tem necessidades de voar, de mergulhar entre as feras, de correr sem cansar?

A saudade está lá, nas figuras mitológicas, nos super-heróis e seus poderes além desta roupa. Está na insatisfação de quem se contempla no espelho e não consegue ver o belo, por mais que os padrões deste mundo indiquem o contrário. É como se houvesse algo mais a ser revelado, uma beleza além daquela que somos capazes de contemplar.

Nesta roupa desenham, tatuam, injetam, esticam, lambuzam, recortam, costuram, serram, encolhem, perfuram.

Penduram adereços, crescem cabelos, depilam, implantam. Usam roupas sobre estas roupas, numa busca incessante por algo definitivo em suas vidas, sem perceber que essa busca não levará a roupa perfeita que um dia tiveram, a muito tempo atrás, quando não haviam ruas de lodo e casas mofadas.
Essa roupa que tentamos reproduzir não é desse mundo.

Disse um homem santo, numa segunda carta ao povo de Corintho, ali pelo 5º capítulo, que estas vestes nos aguardam após voltarmos a ficar nús ainda nestas terras. Isso graças ao Grande Alfaiate, que se fez nu, e como estas vestes de animal, andou entre nós. Mas isso já é uma outra história...

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