13 de março de 2010

Click, o tempo que passa e o mal que permanece

Zé Luís

Não sei se você já assistiu “Click”. É uma estória esdrúxulamente cômica de um homem que consegue um controle remoto para lidar com sua vida como quem lida com um filme, editando as partes onde existe tribulação, avançando no tempo até os momentos de vitória, dando “mute” na cunhada chata, entre outras situações tragi-cômicas. Em determinado trecho, ele tenta se livrar do tal controle, mas toda vez que o joga fora, a peça reaparece em algum lugar de suas roupas (ou corpo). Ele não pode se livrar mais daquela sina.

Existem determinadas forças que nos levam, vezes a glória pessoal, hora a vexames. É nesta última, chamado de velho Adão - que tentamos maquiar e declarar que já existe em nós - que o Criador usa para nos aperfeiçoar.

Todos nós, vergonhosamente, possuímos aquele pequeno podre em meio ao cheiro bom que o Espírito exala em nós. Todos os legítimos convertidos possuem uma mosca varejeira mergulhada no frasco de perfume caríssimo. Todos - sem exceção - tem pensamentos que nos assaltam de tempos em tempos, gritando em nossos ouvidos o quanto somos mesquinhos, vis, presunçosos, perversos em nossa satisfação com o tombo alheio.

Certa vez, bem antes de imaginar que iria pisar numa igreja “de crente”, tive que ministrar palestras sobre assuntos de cunho profissional, o que me fez tremer: conhecia bem o assunto, mas estar diante de tantas pessoas (algumas que eu julgava atá mais capacitadas que eu) fazia meu estômago dar voltas. A chefe que me chamou para o trabalho percebeu minha palidez, e me tranqüilizou com o seguinte exercício mental:

“Imagine que todos eles estão sentados em vasos sanitários...”

Não me lembro de rir tanto em outro serviço quanto aquele. As pessoas me achavam simpático, Mal sabiam elas que eu “sabia”. Todos eles, bem trajados em seus ternos e exalando suas colônias caríssimas, passavam pelo ritual de enfrentar uma privada.

Logo alguém pode se levantar, em protesto: “Não tenho estes podres que você alega! Você não sabe minha intimidade com Deus para afirmar algo assim!”

A mais pura verdade: não tenho a menor idéia da sua amizade com o Altíssimo. Mas posso ver o quanto é ridículo se escondendo atrás desta capa de santarronice, tão usada em púlpiros de todo o mundo.

Paulo, um apóstolo de verdade, tinha excelência em revelações e visões do mundo por vir, mas tinha o especulado espinho na carne, a marca de sua vergonha. Ali, sentia-se esbofeteado pelo mesmo ser a quem destronava com seu Evangelho, o diabo em pessoa.

Deus tinha uma resposta para o incômodo de não alcançar a plenitude:

“É nessa fraqueza que Eu te aperfeiçoo. É nessa tua vergonha íntima que você me procura com mais intensidade, sempre dependente, sempre na Minha presença, buscando respostas de Jó para perguntas antigas. É nessas freqüentes quedas que você consegue discernir o que você é. Apesar de ser o grande Paulo de Tarso, vaso escolhido, plantador de igrejas, com um currículo de evangelismo invejável, és um homem, e como homem, preciso cuidar de você como tal, expurgando possibilidades de soberba, tratando-o como trato a todos que amo, sem diferenciais...”

Deus não faz de homens, ídolos. Que faz ídolos são outros homens. O único homem que Deus permite que seja contemplado é seu Filho, e mesmo assim, ele não será lembrado pelos congressos que organizou, pelos ternos alinhados caríssimos ou nem mesmo pela excelente oratória: sua imagem é de um homem triturado entre humilhações e a chibata, para morrer pendurado em um tronco, numa triste tarde se sexta-feira.

Um comentário:

  1. Olá meu amigo, antes de qualquer, valeu pela força! Que bom que está "por aí"... E esse texto hein, eu já me despi de minha capa de super-crente, não arrasto minhas mazelas pra debaixo do tapete e finjo estar tudo bem. Quando adoeço, vou ao hospital e há um Médico que me cura. Hipocrisia pensar: não há nada que desabone minha conduta cristã; infelizmente não conseguimos parar de pecar por pensamento, as vezes os piores. Paulo disse: "Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço". Rm 7:19. Prossigamos incansáveis, até que o homem corruptível se revista da incorruptibilidade de Deus. Click, filme muito bacana, com valores famíliares louváveis. Abração, desculpa o sumiço.

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