16 de março de 2010

Foi o Diabo!

Sermão: "Um livre pensador é escravo de Satã"

por Zé Luís

Uma das situações que sempre repudiei naqueles que se diziam crentes era a estranha mania de culpar o diabo por tudo que faziam de errado. Percebia que, em muitas das vezes em que eram pegos em flagrante delito, o diabo era o autor intelectual, e o realizador do ato era  tão inocente vítima quanto aquele que fora atingido pela ação.

Quando ingressei nas fileiras do evangelho – soldado fraco, patente rasa – crendo que tinha julgado-os mau, questionei certas declarações de meus irmãos, e antes que pudesse imaginar, deparei-me com a acusação: “Foi o diabo!”. Quando argumentei sobre as responsabilidades de cada um, eu passei a ser o endemoniado.

Jesus havia me dado a liberdade de pensar, mas agora que minha mente estava limpa e adornada, qualquer pensamento fora do pré estabelecido era estranhamente considerado “cilada do inferno”. O problema não estava no despreparo em responder questões além do limitado universo nos quais se submetiam. Era o diabo que falava na minha boca, e como o pai da mentira é desmerecedor de qualquer crédito, o mesmo tratamento me era concedido.

Quem se sente livre para pensar, pode se dar ao luxo de pensar não usando o pré- estabelecido. É apenas uma opção de raciocínio que você pode utilizar através desta maravilhosa peça que se ganha gratuitamente quando nasce: o cérebro.

Vi que o argumento "Diabo" era procedimento padrão, e muito usado nos mais diferentes casos:

Desde a Inquisição, gente má, travestida de gente boa, resolvia seus problemas de autoridade questionada mandando seus opositores para a fogueira, com a alegação de que prestavam serviços a Deus queimando hereges, bruxas, e tantos quantos considerassem convenientemente discípulos de Satã.

Realmente o diabo estava ali – creio que ele realmente atua, não duvido – mas ele estava na pessoa que mandava gente para a fogueira. O diabo era clérigo, e usava em seu pescoço, o símbolo da morte do Filho. Quando leio “O Grande Inquisidor” de Dostoievski, lembro que o questionamento feito pelo religioso a Jesus é o mesmo quando os demônios eram expulsos: “Que temos nós contigo? Não chegou ainda a nossa hora!”

Jesus propõe liberdade, o religioso propõe cabresto.
O Mestre pede para ser questionado, o religioso considera isso afronta e rebeldia luciferiana.
O Messias não se importa de ser visto entre cachaceiros, bandidos, desvalidos e prostitutas.
O religioso se vê acima de tudo e todos, e por isso não consegue enxergar por onde anda o Cristo, a quem diz servir.
Religiosos procuram os melhores acentos, os ternos mais alinhados, a pompa e o reconhecimento que seu trabalho é digno e respeitável.
Inquisição: muitas ilustrações no Google Imagem
O Filho do homem passou a vida sendo tocado por mãos leprosas, mulheres imundas, entre pedras e poeira. Terminou seu ministério coberto de sangue, catarro, suor e muita, muita dor.

Continuo livre para pensar, e por isso posso não ser aceito nem entre os que se dizem servos do Altíssimo, nem entre os que zombam da crença infantil em um Deus que amo.

Quando Jesus propõe a parabola das sacas com prata (talentos) ele conta sobre alguém que dá algo de alto valor, correndo o risco de perder, já que espera que sua moeda seja negociada. Para deixar enterrada, que fique com nada então: passe àquele que já sabe como fazer e não será inútil.

Pense com a medida que lhe foi dado. Não tema perdas e prejuízos, ele virão independente de seu medo: faz parte deste estranho dom tão pouco utilizado entre pessoas destas “igrejas”.