15 de março de 2010

O que fazer com sementes?

por Zé Luís

Essa coisa sobre Reino Celestial é intrigante.

Sempre que penso que já sei tudo, lembro-me de uma velha novidade e então, está lá: desenterrado do parque arqueológico da mente, novo, reluzente, inédito em todas as gerações, sempre presente no espírito humano.

Faço parte de uma sociedade ocidental latina, consumista, emergente e capitalista. Nossa comunidade não tem por hábito dar-se ao luxo de abrir mão do “ter” antes do “ser”. Valorizamos o sexo na sua forma mais promíscua (e os que não valorizam, lutam de forma quase heroica para mantê-lo, ao menos, sob controle).

Precisamos nos nivelar pela capacidade alheia de consumir. Exemplifico através de uma letra dos Mamonas Assassinas, 1406:

Eu queria um apartamento no Guarujá
Mas o melhor que consegui foi um barraco em Itaquá
Você não sabe como parte um coração
Ver seu filhinho chorando querendo ter um avião
Você não sabe como é frustrante
Ver sua filhinha chorando por um colar de diamantes
Você não sabe como eu fico chateado
Ver meu cachorro babando por um carro importado

É comédia, mas em vários momentos nos aproximamos do absurdo cantado ali.

O que temos, como contra-ponto a esta correnteza de coisas nas quais estamos atolados é a proposta cristã, que nos oferece gigantescas e suntuosas almas, capazes de transformar essa tão tenebrosa corrente em poça, em fio de esgoto que escorre e se denuncia pelo mal cheiro. Mas como obtê-la?

O que o Mestre oferece para que isso aconteça não é nada suntuoso. Para enxergar a cura que Ele tem para nós, pegue uma boa lupa e olhe em suas mãos: são sementes. Minúsculas e ordinárias sementes.

Sementes que nem sabemos onde e como cultivar, ou mesmo se são realmente sementes. Parecem apenas versículos matraqueados por gente “nada atraente”.

Se resistir ao impulso de desistir, siga-O, e perceberá que Ele as lança a todo segundo. Quando perceber, você estará longe, talvez até em um deserto, distante de tudo que te submergia. Sua alma estará repleta de nobreza que não é sua e já não é mais quem pensava ser. Aos poucos aquele pé de esperança, as mudas de amor e fé, as primeiras folha de compaixão e equilíbrio próprio estarão se avolumando sobre sua existência.

Você continua seguindo, e haverá momentos em que se perguntará porque faz isso: você já é bom o suficiente – pensará. O mestre semeador sabe desse momento também. Sabe que a ilusão de ser independente se agigantará a partir do momento que seus antigos iguais se admirarem com sua mudança.

O Mestre já tem essa ingratidão prevista em seu plano de resgate. Caso aconteça, Ele sabe fazer desta uma ferramenta de correção e crescimento. Descanse dessas acusações.

E isso tudo, a partir de pequenas sementes nas quais você permitiu que caísse em seu canto da alma mais fértil (geralmente o mais dolorido), e te transforma, gradativamente, em um futuro cidadão eterno e celeste.

Bem vindo.