2 de março de 2010

Quando o diabo disse a verdade

Zé Luís

Gosto do primeiro livro da bíblia, Gênesis.

A bíblia, nos seus sessenta e seis livros, só é confusa quando informa acontecimentos ocorridos fora da esfera humana. Já ouvi cristãos sérios atribuírem a este livro o status de mitologia, o que não concordo.

Lendo “Transposição”, no livro “O Peso da Glória” de C.S.Lewis, entendi porque minha mente tri-dimensional não absolve a profundidade deste livro (o mesmo acontece com as visões narradas do “trono celeste” e seus seres viventes, ou a narrativa apocalíptica dos últimos momentos da humanidade  narrados na ótica da dimensão que não vive no tempo. O resultado é um estranho relato de luzes, brilhos, mares de uma substância que não pode ser líquida neste plano, um trono de raios, miríades de seres não humanos e tempos desordenados em sua cronologia).

O homem é criado, perfeito, imortal, sexualmente ativo e multiplicável. Vive em plenitude, habita em um mundo perfeito, pois é perfeito. Até que um ser, se apropriando de uma criatura – com o consentimento desta – usa da beleza que lhe era natural, e parecendo inofensiva ao casal (porque esperar algum tipo de perigo em pleno Éden?), questiona o que o Criador tinha dito. Já isto deveria bastar, mas quando a ousadia maligna encontra espaço, ela expande sua tenda.

Não morrerás – mentiu o que será um imenso dragão em Apocalipse. Continuou contando uma verdade. O diabo falou uma verdade: - Serás como Deus...

Foi essa a tentação que derrubou Adão. O desejo de ser como Deus, o que Ele não desmentiu.
 - Eles agora são como nós – confirmou a Trindade.

Somos deuses, o diabo não mentiu. Criamos nossos pequenos universos confrontando nossos novos conhecimentos precários entre bem e mal, confrontando-nos contra outros pequenos universos de egos mais ou menos informados.

Formou-se o caos quando saímos do Éden: A inveja do ego de Cain manda que destrua o que lhe sobrepõe, e dentro de seu universo assassino, destrói seu irmão e se afasta das origens, transmitindo esse mandamento de morte a seus descendentes.

Rapida e sucessivamente, os universos pessoais buscam se sobrepor numa luta para fazer valer seu Eu, formando seus partidos e comunidades.

Nesta altura da leitura, você já entende perfeitamente o que a Bíblia diz. Neste ponto, as Escrituras já estão totalmente humanas, raciocináveis. A outra dimensão ficou para trás, e o caminho de volta nnunca esteve  tão inacessível. Ele nunca existiu, resta-nos apenas a realidade poeirenta e abafada dos desertos vindouros.

O Cosmos só pode ter um Deus para assegurar sua existência. Outro ego, por menor que fosse, não acharia espaço na ordem, ainda mais com a mesquinhez típica e egocentrismos dos mandamentos pessoais.

O diabo, em si, como lembrou muito bem Ariovaldo Ramos em um de seus estudos, é um suicida. Ele não quer estabelecer um reino rival, embora os tenha (lembre que Jesus não o desmentiu quando afirmou isto no deserto). Ele quer destruir apenas. Seu plano de ser como Deus falhou e ele sabe disso. Cabe a ele levar o máximo de criaturas amadas em seu derradeiro final, enquanto vive da poeira produzida na morte dos homens.

O principio das coisas da alma está contido no principio dos conflitos da nossa criação, e isso não é mito. Está inserido a milhares de anos, inexplicavelmente disfarçado, irremovível, povoando nossos sonhos, e como uma baleia branca mítica, vem a superfície nos provocar quando menos esperamos, nos chamando para  sair em sua caça.