18 de abril de 2010

Amnésia no paraíso

por Zé Luís

Certa vez, ouvi em uma pregação sobre o céu vindouro. O pregador dissertava sobre o último livro do Novo Testamento, e garantia que não lembraríamos mais de coisa alguma desta vida. Tal afirmação é baseada em um dos últimos versículos da bíblia (especificamente em Apocalipse, no capítulo 21).

Tal afirmação sempre me intrigou: Nesta atual dimensão, sou alma vivendo num magnífico aparelho feito de material orgânico, extremamente funcional, com um tempo médio de duração de oitenta anos.

Essa existência vem ocorrendo entre os homens, durante séculos. Alguns vivem mais, outros nem chegam a sair da condição de feto.

Mesmo assim, há em nós esse anseio nativo de fazer nossa existência algo que valha a pena. Amamos, lutamos, matamos, temos filhos. Vivemos como fossemos histórias fazendo parte de uma grande história, embora isso não pareça ter sentido em partes cruciais do enredo. São nestes momentos que nossos olhos buscam outro propósito, uma lógica nas lacunas caóticas, e aí, buscamos alguma compreensão no oculto, no espiritual.

O Cristianismo apresenta, ao meu ver, a proposta única. Ciente de minha precária condição, reconheço que se faz necessário que se abra essa escada dos céus(não o oposto), que me conduza à próxima dimensão. Cabe a Ele, se lhe aprouver, me guardar, me guiar, me ensinar. É esta a proposta.

O que me encafifa é, que, quando - e se - eu estiver lá, no lugar onde ficam os - agora - eternos, não saberei quem fui, nem quem são os que vieram antes ou após minha existência ali. Toda esta luta é jogada no lixo, todas as paixões e batalhas são inutilizadas, invalidadas.

A ideia de existir eternamente ao lado daqueles que batalhei nesta terra, sem saber quem são eles nunca me pareceu atraente, ou mesmo lógica. Explico:

Existirá eternos seres, em estado de permanente satisfação, e outros, igualmente imortais, em estado de permanente morte. A questão do conhecimento do bem e do mal, na qual experimentamos, não apelaria em meu raciocínio sobre o porque daquela divisão aparentemente injusta entre céu e inferno? (Lembre-se: viveremos sem lembranças,e portanto, sem a experiência que me explique a situação).

Creio que este mundo sem lágrimas só seria possível se as dores e crueldades desta vida fossem deixadas para trás, ou seja, "esquecidas", no sentido pior: perdoadas.

Mas como perdoar as atrocidades das guerras, os genocídios, as torturas feita contra inocentes, as maldades, estupros, pedofilias, toda a dor infringida? As traições? As mentiras? As emboscadas? Isso sim seria um milagre, se esquecido, se deixado para trás...

Não esquecido como uma amnésia.

Simplesmente, toda a maldade imaginada, todo pesadelo, toda a dor, será incapaz de alcançar o lugar onde residem estes seres. Não haverão mais pesadelos, nem desesperos repentinos. Angustias sim, perderão o sentido com o passar dos primeiros milênios, e aquela breve gestação, o pequeno período inferior a um século, onde nos lembraremos de um mundo distante, uma infância triste talvez, mas que não faz mais sentido em ser recordada, assim como não faz mais sentido lembrarmos dos motivos das lágrimas de nossa mais tenra infância.

6 comentários:

  1. Duas coisas que me perturbam no planeta chamado evangélico: 1) A constante preocupação de como viveremos "lá", e a despreocupação de como vivemos "aqui", e 2) O constante conflito entre a "Graça que me salvou" e o fator "será que estarei lá?".
    Coisitas que me deixam.... confuso!
    Abraço, mano!

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  2. Creio que este conflito nasce com nossa "certeza fingida" de sermos salvos.

    A gente repete a cartilha bonitinho, mas no fundo sabe que tem todos os motivos para não ser deste Reino.

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  3. E essa "certeza fingida" seria uma marca em todos nós? É algo inerente ao todo cristão?
    E, realmente, temos todos os motivos e mais alguns para não sermos mesmo desse Reino. E, se bem entendi o Evangelho, ainda bem que a salvação não funciona desse jeito, não é mesmo?

    Esse blog nunca mereceu tanto o nome que tem como agora, hein, Zé? (risos...)

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  4. Essa dicotomia entre declarar-se cidadão do céu, sem o mérito inalcançável de lá estar não é algo muito fácil para meu raso intelecto.

    Já ouvi muitos pregadores falando do céu, como o merecessem.

    Gostamos de afirmar que nossa vaga nas mansões celestiais está garantida, mas acreditamos mesmo nisso? É fé, eu sei.

    No final do Príncipe Caspian, Aslan oferece o reino a ele, que se julga indigno.
    "Por isso, você pode se-lo..." - responde o Leão.

    Acho que é isso...

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  5. Também acho.
    Por enquanto, acho bom a gente ir vendo se merece ser cidadão aqui da Terra, mesmo... se a gente conseguir, o resto é com Ele.
    Fui!

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