11 de abril de 2010

A frustração da bailarina

por Zé Luís

Dia desses, um comentarista anonimo me chamou de burro(o que não foi totalmente incoerente da parte dele), e me recomendou o site de Lair Ribeiro, com seus cursos de neurolinguística, para que eu pudesse aumentar minha inteligência.

Sinto que não tenho mais salvação, já que fiz seus cursos a muitos anos atrás, e foi em seu hotel fazenda em Taubaté que recebi o diploma de graduação como 'facilitador' das mãos do próprio 'guru'.

Das poucas coisas que lembro – embora ainda tenha em minha estante quase toda a obra escrita, literatura obrigatória para seus cursos (a ideia de jogar livros no lixo, ou mesmo ceder ao impulso de incendiá-los só é mais repugnante por tal ato remeter-me a atos da Alemanha nazista) – há um conto que ainda recordo, onde ele conta, com direito a interpretar o sotaque supostamente russo do professor de balé. Era mais ou menos assim:

“Conta que numa cidade do interior, havia uma mocinha que sonhava em ser a maior bailarina de todo o mundo: passava seus dias exercitando seu talento trancada em seu quarto, diante do espelho. Tudo que surgia em revistas e na TV sobre o assunto, ela corria a pedir aos pais para que comprassem. Foi nestas revistas que descobriu o nome de um maiores mestres da dança mundial, e que ele estaria vindo a sua cidade com seu grupo de dança.

Ela mais que depressa correu a reservar seu ingresso no teatro municipal da cidade, onde se daria a apresentação do grupo.

Quando o grande dia chegou, ela era primeira da fila de entrada, e se assentou na fila do gargarejo, não antes de tentar uma audiência com o grande mestre da dança, que aceitou conversar com ela com certa resistência, mas só no final da apresentação.

Assim foi: o mal-humorado professor de dança ouve sua proposta, ela queria mostrar suas aptidões de dança ao homem, e começou a rodopiar e pular. Nem dois minutos se passaram, quando o velho a interrompeu:
Você não tem chance...desista... - disse ele, dando-lhe as costas e indo embora.

O mundo daquela jovem, naquele momento, se despedaçou no chão onde dançara. Muitas lágrimas desde então regaram o abandono definitivo da dança, que nunca mais praticou. Ela tinha a avaliação de quem entendia do assunto. Isso definia tudo.

O tempo passou, ela casou, teve filhos, e novamente, após anos, soube que o grupo de dança do velho mestre iria a cidade. Inexplicavelmente, ela venceu seu trauma, e foi até teatro, ver a dança que tanto amou um dia. No final do espetáculo, procurou o já bem velho professor:

Lembra de mim? - questionou ela.
Não... realmente não... - respondeu ele, com o mesmo ar desinteressado em novas amizades.
A anos atrás o senhor veio aqui, eu dancei para me avaliar, e você disse que eu não tinha chance nenhuma com meu talento...
Realmente não lembro. Eu nem devo ter prestado atenção, falo isso para todo mundo...
A mulher se irou:
Como pôde!!! Eu tinha sonhos! Tinha um futuro! Poderia ter sido uma grande bailarina! O senhor acabou com minha vida!! A culpa é sua...
O velho mestre a observava com o mesmo ar, e após uma breve pausa do discurso irado da mulher, ele respondeu:
Não. Você jamais teria sido uma grande bailarina. Uma grande bailarina jamais teria desistido diante de qualquer opinião negativa, de quem quer que fosse...”

Sempre penso neste conto ao ver pessoas lamentarem seus destinos, culpando outras por não alcançarem seus sonhos. Mas em minha experiência pessoal, onde Deus define a função de cada um na existência, e a responsabilidade de cada um nessa imensa roda viva chamada existência, creio que o argumento do velho mestre pode já não ser tão verdadeiro.

Afinal, devemos insistir em nossos sonhos para nos mostrarmos que somos tão bons quanto imaginamos, ou isso tudo é um teimoso exercício de “esmurrar-ponta-de-faca”?

5 comentários:

  1. Ué, ficou sensível flor? Calma. Costuma existir uma série de motivações pra não desistir. Normalmente as pessoas escolhem aquelas que fazem sentido e dão um objetivo pra elas. De repente vale a pena até dar murro em ponta de faca... Talvez a pergunta correta fosse: "minha motivação é correta e o bastante?"

    Leão.

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  2. Claro que não Zé, você já é uma grande bailarina! Pode crer.

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  3. Belo conto! Também já estive nessa situação, mas n meu caso não desisti, mas percebi que aquele não era o meu dom (no caso análise de sistemas). Descobri através do jornal da faculdade minha verdadeira vocação: fotografia. Para ver como a vida dá voltas...larguei a faculdade e estou mais realizada me preparando para o curso de fotografia lendo apostilas de Lightroom do que com algoritimos.

    Obrigada por me seguir no Twitter e seu blog já está favoritado na minha "Leitura Hiperativa".

    A Paz!

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  4. sei lá...
    tenho um certo medo de gente que não desiste jamais, sabe aqueles tratores existênciais?

    Existe momentos sim, que devo desistir.

    Tanto para o bem como para o mal já vi coisas espantosas, então procuro o tal caminho do meio.

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  5. tá dizendo que seu sonho é ser escritor? =p

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