23 de abril de 2010

O mistério do cheiro

Zé Luís

Num bate papo informal na hora do almoço, foi difícil não comentarmos o forte e agradável cheiro daquela refeitório, na empresa onde trabalho.

Todos os dias, frituras, o feijão fresco, as frutas e legumes, inundam nosso olfato, atiçando nosso apetite, incrementado o que iremos deglutir e – no meu caso – questionar intimamente o porque de comer tanto, e de quando começarei a fazer algum exercício que me faça reduzir a circunferência que virou minha barriga. No dia seguinte, comerei o mesmo tanto, ou mais. Talvez tenha as mesmas culpas, mas amanhã será outro dia, não me pertence.

O detalhe é o cheiro.

Imagine a goiaba, abacaxi ou a manga não tivesse aquele cheiro. Piqui só conheci fora de São Paulo, em Cuiabá, a venda nos carrinhos de rua do centro da cidade, e o cheiro é só dele. Quando sinto o cheiro (ou lembro dele), me projeto aos carrinhos no calor indecente daquela cidade.

Cheiro é assim.

Quem não lembra de hospital quando sente éter no ar? O cheiro de pizza assada em forno a lenha que inunda alguns lugares aqui de São Paulo parecem tocar música italiana.

Tem odor que é catinga(não “caatinga”: fedor, mal cheiro em “nordestinês”) que parece queimar os pelos do nariz, ou lacrimejar os olhos. Como uma axila pode ser tão poderosa? Tem gente que fala que lembra coxinha, ou café torrado.

O cheiro do coletivo no fim da tarde, quando perfumes baratos se misturam ao suor da peãozada, o sabonete, o cheio da chuva batendo na terra, o banheiro sujo,  madeira, flor em cemitério,o cheiro da roupa daquela tia-avó, o perfume inconfundível daquela pessoa que só você sabe, mas quanto sente em outro lugar, sua imagem logo lhe vem...

Todos as descrições acima podem ter te levado a lugares mentais numa brincadeira de vai e vem, onde talvez você tenha rido. Eu disse talvez.

Certa vez, o Mestre foi agraciado com um presente. Um presente caro de uma mulher. Um unguento deliciosamente cheiroso, que toda mulher de sua época passava a vida economizando para usá-lo no dia de seu casamento, para ficar irresistível, ser linda e atraente também com o nariz. Foi derramado em seus cabelos, diante de todos ali.

Os presentes sabiam que aquele nardo, que inundou as narinas de todos na casa cheia, era um produto caríssimo. Não precisou mais que sua fragrância para denunciar tudo o que nele ia, o que representava e que circunstâncias aquilo implicava. Judas Iscariotes sabia bem:

- Que fortuna desperdiçada! - lamentou. Era a economia de uma vida.

O Mestre revela que o corpo Dele estava sendo preparado para o dia de sua morte, e que aquela mulher seria lembrada pelo seu ato pelos tempos e tempos. Se cumpre até agora.

O Salvador enfrentou a cruz, e toda a agressão e violência infligida com um cheiro agradável em seu corpo. Enquanto fazia seu sacrifício, o cheiro de algo precioso invadia as narinas de seus carrascos. Na cruz de uma sexta-feira, Deus morria cheirosamente, deixando a marca em um mundo que não pode lembrar o dia ser sentir o cheiro do sangue precioso limpando nossas almas.

2 comentários:

  1. Que nós possamos transpirar o perfume do Mestre...

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  2. - Primeiro: Adoro comida e o seu cheiro;
    - Segundo; seu cmentário acerca dos odores, realmente me trabsportaram para situações especificas em que o cheiro se fez mais que presente.
    - Terceiro: Maravilhosa analogia, chegou a ser poético.

    Realmente nunca havia pensando desta forma sobre o bom perfume de Cristo, exalando na sua hora de maior aflição, como um vidro de perfume quebrado.

    Adorei,

    abraço.

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