10 de abril de 2010

O sem-sentido da vida

Sabe aquela situação que não faz o menor sentido?

por Zé Luís

São seis horas da manhã em São Caetano do Sul de uma quinta-feira comum e ordinária.

O homem desce na estação central da cidade junto a esposa, beija a mulher e se dirige para mais um dia de trabalho. A marmita ainda está quente na mochila, sua mulher vai para igreja: está em campanha de oração nesse horário.

Ele pensa se é realmente hora dele conversar com seu encarregado sobre seu salário, nas prestações da geladeira quase quitada, no churrasco na casa do Júlio... queria levar as crianças mas o carro não está legal... motor com problemas...

Alguém grita do outro lado da rua, um baque seco o derruba com violência, e tudo se apaga. Momentos depois, sua mulher, que já orara, vê a multidão aglomerada em volta de um corpo morto, seu marido, esmagado por uma imensa árvore que caprichosamente o escolheu matar quando caiu.

A uns meses atrás, cheguei a cidade para mais um dia de trabalho, e me deparei com essa multidão, essa árvore, além dos gritos desesperados de uma mulher. Só ontem soube porque, mas mesmo assim, ao contemplar essa cena em minha mente, não vi sentido.

Uma vida deixa de existir sem aviso prévio, e isso não é lógico. Se existe algo um raciocínio em nossa alma, crente ou ateu, é que vivemos sempre na expectativa do momento seguinte. Creio que mesmo o suicida - me “acorrége” se estiver enganado – aguarda o momento seguinte após concretizar seu derradeiro feito: "Será que haverá a paz derradeira então?"

O fim, na verdade, não nos faz sentido. Por isso sei que não somos desse mundo: intimamente, sabemos que há um próximo evento. Mas...

Contemplamos o fim repentino, tão cotidiano e comum, mas preferimos acreditar que isso não nos sucederá. Nosso fim pessoal será depois de todos, cheio de vida,  sem dor, depois de todas as tarefas cumpridas, todas as metas alcançadas, em paz com todos e os inimigos devidamente neutralizados.

Lembrei em meio as reflexões de como Mestre classifica gente deste presente século, que planeja construir grandes monumentos e palacetes num lugar que não se definiu: no futuro.

“Louco! Esta noite pedirão a sua alma!” - sentencia Ele, finalizando sua parábola, em resposta ao bem sucedido empresário que só vive de projeções que só se auto-incluem e se auto-beneficiam.

“Louco! Não é revelado a você o teu fim!”, “Meus planos não são os seus”.

A vida sempre nos mostrou que nosso tempo é para ser vivido em segundos, a cada gota, mas nos entregamos ao absurdo de querer garantir que haverá amanhã, de a rotina da existência ininterrupta é para essa vida e com nossas regras.

“Loucos”, comenta boquiaberto o Mestre, que não entende nossa absurda maneira de viver adiando a vida para um momento propício que pode nunca chegar. Protelamos perdão, amores, caridades, renúncia para uma possível situação oportuna que nunca ocorrerá.

Só assim o caos dos acontecimentos farão sentido:

Aproveite a vida enquanto a tem. Corra e faça o que há de ser feito, ninguém sabe o que há na outra esquina. No mais, se você preferir adiar, as mortes continuarão acontecendo, independente se suas crenças pessoais disserem o contrário.

2 comentários:

  1. O fim... Pegou carona na minha filosofia fatalista é? Hahahaha... Pena que com tantos "avisos" seguidos do tipo: "enquanto é tempo", não seja motivo pra riso. Lascou!

    Leão.

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  2. Como uma música mundana que ouvia quando era adolescente e sempre escrevia naqueles cadernos, camisetas ou fotos da turma que eu (às vezes) e os coleguinhas reservam para você colocar a sua mensagem: "Não deixe nada para semana que vem, porque semana que vem pode nem chegar."

    A Paz!

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