25 de abril de 2010

A repreensão mais difícil

por Zé Luís

Desde que me lembro como cristão frequentador de igreja evangélica, participo da área musical. Toco desde os 13 anos, e mesmo tendo me afastado dos “palcos” após meu casamento, acabei por me reintegrar neste universo, agora chamado "gospel". Na verdade, este universo de músicos, chamados levitas, é bem diferente do mundo da música normal, do pop, do rock, da MPB...

Os levitas sabem que todo o aplauso é dado como um reflexo automático ao final de um período musical, e como aprendemos, toda ovação e reconhecimento é para Jesus. Estranho são as “piruletas” que estes músicos fazem: lembram muito os que tocam para serem aplaudidos.

Uma de minhas ex-alunas, exímia instrumentista – na verdade, ela se destaca em várias áreas de sua vida pelo esforço e capacidade intelectual – tem um gênio também irriquieto(é uma forma elegante de dizer que ela é uma mulher de fases).

Desde os tenros tempo de escola bíblica ela, com a liberdade que dei para isso, me repreendia por não entender o objetivo daquelas aulas esdrúxulas que eu ministrava. Sempre foi assim: a meus amigos é dado a liberdade de expor meus vastos erros (alguns são involuntários).

Após anos ouvindo essas repreensões, houve um problema: estava em um dia ruim, e após mais uma das truculentas reprimendas por minha postura irritantemente risonha, acabei por responder aquelas indagações todas, de uma forma mais firme, e expliquei a causa daquele comportamento crítico dela em relação às outras pessoas.

Ela chorou por duas semanas. A família dela ficou contra mim, a mãe me ligou após o evento, me esculachou.

Quando fui tirar o caso a limpo para saber o que eu havia dito de tão agressivo (não usei 1/10 da habitual truculência dela) ela voltou a chorar, tremendo queixo, fazendo beiçola (desculpem: estou rindo) e entre soluços, acusou-me de ter sido muito ríspido em minhas colocações.

Certa vez, um homem chamado Jó, exigiu de Deus satisfação sobre a sua calamitosa situação em que, claramente, Ele o havia posto. Quando o próprio Criador de estrelas surge para responder, Jó, numa postura correta, se encolhe em sua alma, arrependido do absurdo de ser criatura, orgânica, finita, desimportante, com o dedo em riste onde julgava ser o nariz do Todo-poderoso.

Deus questiona-o: Você tem critérios para poder julgar o que eu faço? Sua capacidade intelectual é capaz de compreender a estatura de meus projetos?

Nós não estamos prontos para ouvir o que o Mestre tem para responder. Muitos, simplesmente, ignoram os atalhos e placas que o conduziram até a presente situação, outros nem imaginam que esse século de dor não passa de um pequeno sopro diante da eternidade.

Como minha crítica amiga, estamos prontos para expôr nossas mais recentes descobertas, com os critérios até agora nos revelados, mas não conseguiríamos suportar a realidade: que o espelho reflete em partes porque não aguentaríamos o peso de sabermos o que realmente somos.

Quanto a ela, continua me dando broncas, fala sobre minhas piadas sem graça postadas aqui, e de como é ridículo um quarentão como eu continuar com estas bobagens. Eu escuto, não sou surdo.