6 de abril de 2010

Sim: é a sua cara!

Existem situações que o teste de DNA é totalmente dispensável.

por Zé Luís

Não foi com pouco espanto que o vi, logo pela manhã. Jamais imaginaria que pudesse aparecer ali, naquele momento, mostrando aquela velha cara de poucos amigos.

Era meu pai. A anos não o via: ele prefere assim, e nós, filhos, respeitamos sua decisão.

O lugar? Eu tomava banho, no meu ritual matinal de despertar e sair correndo para o trabalho, já que a água quente do chuveiro me faz prolongar mais do que o horário permitia. Peguei a toalha, e foi no momento que passei a mão no espelho, tentando desembaçar o reflexo que ele surgiu: descabelado, meio grisalho, com aquelas bolsas no lugar das profundas olheiras cansadas. Aquela cara de bravo, com seu nariz que mais parecia um bico de coruja estavam ali, me encarando.

Nunca me dei conta do quanto estou parecido com ele (dizem que até a voz anasalada em dias de cansaço lembra seu timbre). Sinceramente, perdi o jeito de garotão (Deus que me livre das crises da andropausa) e assumi definitvamente aquele tipico rosto de potiguar carrancudo que ele tem.(fora o peito de pombo e a barriguinha "meio" exagerada).

Ouvi certa vez e é verdade: quando criança, fazia careta para o espelho. Creio que agora ele se vinga. Não que ache papai feio: Não é isso! Sempre achei-o lindão. É meu pai, ué...Começo a cair na real e reavaliar meus conceitos estéticos.

É interessante essa coisa de pais e filhos: o sujeito casa com a moça,  falando mau da sogra, sem se dar conta que a esposa, com sorte, se parecerá com ela. Digo sorte porque ainda existe a opção de se parecer com o sogro, e possuir aquele belo bigode, semelhante ao pai dela.

E as semelhanças não ficam só na aparência física: só precisa o tempo passar para você se achar cometendo as mesmas falhas que você sempre ouviu sua mãe reclamar. Suas discussões serão semelhantes, e os argumentos tacanhos, que você tanto abominava, sairão de sua boca como se você nunca os tivesse odiado.

Nos natais, quando a família se reune, rimos das aparências e trejeitos dos filhos e sobrinhos (e as vezes até nos assombramos): “Aquele neto anda igual a vovó...e tem o mesmo cabeção...”,” essa sobrinha é um “cocô! Como lembra a mãe dela”, “meu Deus! Esses moleques não param de bagunça! Bem feito prá você! Você era deste mesmo 'jeitcho'...”

“Quem me vê, vê o Pai” - refleti nas palavras do Mestre. 

Quando pediram para que Jesus mostrasse seu album de família, algum registro que tivesse a foto do Pai, Ele ficou indignado: "Estou com vocês a tanto tempo, e não me viram..."

A tendência de um filho de Deus é lembrar gradativamente o Pai (que é o Filho. Confuso não?). Certamente existirão alguns que nem de longe lembrarão ao Pai, mas cabe a Ele trabalhar na educação de seu adotivo.

 Que seja essa a nossa oração: que pareçamos com o Filho, por que Ele está e é o Pai.

Parece que esta é uma tarefa que o tempo deve cumprir, mas não é verdade: alguns, realmente, envelhecem e ficam sábios. Outros apenas envelhecem.