1 de maio de 2010

Ainda sobre fábrica de loucos

Zé Luís

Ninguém entendeu quando Cecília sentou-se na mesa da supervisora, em meio ao grande departamento e começou a declarar que tomava posse daquele cargo, enquanto melava o móvel, o telefone e o computador com um óleo com cheiro de perfume barato, do qual dizia ser azeite.

Naquele dia, ela chegou recitando chavões evangélicos ininterruptamente, como se fossem mantras: “Sou cabeça, não cauda!”, “Decreto a benção! Eu profetizo!”, “Deus tirará do ímpio e dará ao justo...”, “Eu sou fiel com meus dízimos! Deus me honrará...” entre tantos dizeres... Já ha alguns dias ela não falava coisa com coisa, mas aquele dia parecia ser o derradeiro.

O marido, irmãos da igreja, e mesmo colegas de trabalho já vinham percebendo que algo com a jovem moça não estava andando bem. O marido chegou a procurar aconselhamento pastoral: estava preocupado com o comportamento cada vez mais estranho.

Naquele dia, a moça surtou: foi levada amarrada do serviço pela ambulância, e ninguém foi capaz de acalmá-la, até que os fortes calmantes a derrubaram.

A nenhum irmão na fé foi dado a permissão de visitá-la durante o longo período em que esteve internada. Até mesmo ao marido isso foi negado nos primeiros dias. Os médicos calculavam que o ambiente em que Cecília estava inserida poderia ser um fator agravante para aquela séria doença mental que pegou a todos de surpresa(para não dizer que era a causa).

Sim, o nome é fictício, mas a história é fato.

O pior: é praticamente unanime entre os profissionais desta área que um bom percentual dos atuais internados nos manicômios são desta vertente religiosa.

Ouço constantemente que devemos ganhar almas para Jesus, mas que tipo de neurose é essa, que invade os locais onde o nome do Mestre é invocado?

Tudo aquilo que “Cecília” balbuciava no dia de seu surto representa boa parte do que se prega em muitos púlpitos. O que isso significa? a loucura continuará sendo propagada.