18 de maio de 2010

A igreja da Arca e o Pastor Noé - Futricas e fuxicos

A arca e seus problemas

por Zé Luís

Tudo começou quando a serpente, ciente do interesse que a girafa possuía pela vida alheia e a latente inveja que a ema demonstrava, começou a espalhar entre a congregação da arca, o seu veneno.

O convívio gradativamente foi tirando as reservas que as famílias de animais tinham em relação às outras, expondo-se cada vez mais em seus hábitos familiares, mas a aquela cobra, por força do hábito, começou a fazer o que mais sabia fazer, e dentro da arca, onde só pode haver salvação – e não morte - fez disso, uma fonte de intriga.

Comentou com a girafa, se enrolando em seu longo pescoço, lembrando em muito a postura que tomou, ainda quando não era rasteante no Éden:
- Você viu a falta de seriedade do macaco durante as ministrações do pastor Noé?
- Ô se vi... - disse a girava, girando lentamente a cabeça em direção ao grupo de chimpanzés que catavam piolhos uns nos outros.

- É... eu também tenho os observado... - comentou a descabelada ema, se aproximando da dupla de fuxiqueiras.
- O que mais me aborrece no Noé, nosso amado servo do Altíssimo, é o quanto ele parece, eu disse parece!, negligente quanto às coisas sérias e sagradas da arca. Aqui deveria ser um lugar de mais respeito – sibilou a serpente, no que concordaram as duas companheiras. A cobra continuou:
- E essa cantoria toda? Não aguento mais ouvir os rouxinóis e sabias querendo ser mais que os outros... Nunca dão oportunidades para as corujas, por exemplo, para entoar um cântico sequer... só pode ser protecionismo da liderança da arca.... Tem visto como nossas fezes estão se amontoando por aqui? Não quero meu esterco misturado à bosta de bicho sem classe. Você, dona Ema, que é um bicho inteligente: gostaria de ver o cocô de seus filhos misturado a de um hipopótamo? Você tão esbelta e atlética, tendo que submeter a um ser tão descuidado... se deixar ele corre lá pra água e lá fica... se bem que, na minha opinião, este é um dos animais que não faria diferença nenhuma se fosse extinto...

A conversa prolongou-se, e segundo a serpente, naquele momento, só as duas atuais ouvintes não tinham falhas. No dias posteriores, porém, as falhas da Ema - que já era tida ironicamente como imbecil - e da Girafa, que a cobra agora acusava de fofoqueira, era motivo de galhofa entre os outros bichos que a peçonhenta rastejante se associava.

Não demorou muito para o burburinho de rebelião começar a dar as primeiras pontadas contra Noé e sua família: a bicharada começou a mostrar irritação com a simples presença do construtor da arca e sua família, e ouvia, como um cochicho, alguns espirrarem a palavra “bebum” ou “cachaceiro” quando Noé entrava no recinto onde estavam.

O velho patriarca, que não tinha problema nenhum em reconhecer o que era e o que não era, nem percebeu que os bichos foram envenenados contra ele, e o clima da arca se tornava cada vez mais tenso. Aos poucos, os costumes de cada raça passaram a ser insuportavelmente pesados para os outros, e os “clãs” se reservavam cada vez mais, não sem que fossem visitados pela rastejante, que sempre trazia novidades sobre a vida alheia.

Um dia, quando os quarenta dias de chuva estavam em seu final, Noé percebeu que o culto estava com a frequência reduzida: ficou-se sabendo que a coruja já não vinha por não ter oportunidades no "ministério", os macacos se sentiam ofendidos quando reprimidos em seu comportamento, dona Ema passava os dias com a cabeça enfiada em um buraco feito pelo pica-pau: alguém andou espalhando que ela era desprovida de inteligência e a serpente disse a ela que ouvira isso da boca da amiga girafa, mas garantiu que ela não fez por mal.

Noé não se importou com isso. Não era um psicologo, era um construtor de barcos que já tinha passado de seu meio milênio vendo Deus agir e aquilo certamente estava sobre o controle Dele também. Naquele dia, ouviu-se em toda a arca que Ele, o Criador, calaria a voz do que procurava a desavença dentro de sua salvação, que só não o havia feito ainda para que esse culpado tivesse chances de se redimir e não ser-lhe infringido o devido castigo.

No dia seguinte, a serpente abriu a boca e percebeu então que só sibilava: já não tinha voz, e na ponta de seu corpo, ganhou um guizo: um sinal para que soubessem que quando ela se aproximasse, veneno mortal poderia ser aplicado e a vida que se submetesse a conviver com ela poderia ser morta a qualquer instante. A girafa, envergonhada pelo que começou na arca, se calou para sempre assim, como dona Ema, como de costume, pois a cabeça em seu buraco, pensando que se escondia da vergonha que ajudou a construir.

Pastor Noé nunca soube ao certo o que se passou naqueles dias. E nem precisava: enquanto o Idealizador da arca estiver atuando, não haverá o que possa leva-la a pique.

Pena que a serpente fez escola, e mesmo hoje, milhares de anos depois, se vê seus alunos espalhados em todos os lugares: famílias, trabalho, igrejas, amizades. Mas se você prestar atenção, pode ouvir seu guizo logo ali, sinalizando que o veneno está prestes a ser injetado.

Tome cuidado.

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