12 de maio de 2010

A igreja da Arca e o Pastor Noé - Um culto

Zé Luís

O convívio fez que todos se compreendessem. Isso não significa que a vida tornou-se mais fácil.

Cada um exala o cheiro que é capaz de suportar, mas suportar odores alheios por obrigação não é um exercício dos mais agradáveis.

Alguns animais realmente não suportaram aquela vivência extenuante: Os hipios, os binvis e os estranhos palatônios preferiram mergulhar nas cinzentas águas diluvianas, que abrigava os corpos mortos de quase toda a humanidade.

Noé chegou para trazer uma Palavra em sua arca. Como sempre, a coruja era quem mais prestava atenção. O casal de macacos desdenhava: “está na cara que Noé não sabe o que fala” - pensavam eles - “Tudo é uma questão de evolução, esse negócio de um Criador ter feito um casal, o mundo em sete dias...quanta bobagem!”

A girava, fofoqueira, ficava de olho no que todos faziam. Quando juntava ela e a cobra, aí que a coisa ficava feia: “O que foi mesmo que Noé disse?” questionava o réptil, e sempre que alguém respondia o tema do sermão, ela recontava a história, distorcendo o sentido original. É uma pena que certas criaturas tenham tanta dificuldades de abandonar seus piores hábitos.

A gralha insistia em fazer o louvor ao lado do rouxinol, enquanto o papagaio ministrava. Estranhamente, muitos preferiam quando a gralha cantava.

Ovelhas se esforçavam realmente para entender o que o velho profeta queria explicar mas, ou seu entendimento não alcançava aquele raciocínio, ou Noé não estava falando nada com nada (ele, como todos sabemos, era chegado a um vinho).

Aos filhos de Noé coube o diaconato: remover a sujeira que a bicharada gerava dentro do culto. Não que aquilo fosse satisfatório, mas assim como todos ali, ninguém queria ficar mergulhado num barril de esterco dos mais variados.

O terrível da arca é que a coisa era “binária”: ou você fica ali e vive, ou sai e morre. Essa é uma diferença - e não uma semelhança – com as arcas de hoje.

Hoje alguns auto-proclamados “Noés” tem o brilhantismo de saber oferecer a salvação através de sua suntuosa arca, mas ao passarmos a viver nela, mesmo quando o fim prometido ainda não chegou. As arcas atuais são lugares mágicos, onde se alcança uma necessidade, e você pode voltar a viver em meio ao dilúvio.

Muitas arcas acabaram guardando dilúvios em suas anti-salas, para quando algum bichinho desagradável surgir, os ameace com o fim eterno. Outras só estão interessadas na parte em que Noé atravessa a tribulação e se serve de um de seus animais em oferta.

Sabemos que o convívio proposto por Deus tende a fazer que enxerguemos cada falha de caráter alheio(e consequentemente expor os nossos), faz com que nosso hálito inunde o nariz alheio, que nosso cheiro seja cada vez mais conhecido, que nossa risada e ladainha seja reconhecida por todos aqueles com quem convivemos.

Por pior que isso pareça, essa vivência aparentemente doentia estava na oração do Mestre, logo em sua primeira frase: “Pai nosso...”

Sei que muitos preferem o “meu Pai”, mas Cristo não ensinou assim: tem que ser ovelha conversando com elefante, lobo com tamanduá, jacaré com antílope, aprendendo a lidar com a sujeira alheia, e vendo nelas, as suas próprias.