5 de junho de 2010

A triste história de Seu Raimundinho

Visto no Olhares

por Zé Luís

Era para ser apenas uma pequena recepção para Seu Raimundinho, senhor conhecido e respeitado por todos de sua cidade. Ele era um daqueles sábios que você pode confiar, que só sai coisa boa de sua alma, mesmo quando suas ações parecem não ter sentido.

Homem de posses e boa educação, que após a morte de seu filho, começou a adotar crianças, dando a todas a formação devida, ensinando a viver como se deve. Claro que nem todas “vingaram” naquilo que seu Raimundinho queria ensinar, mas a fé dele garantia que concluiria essa intenção a qualquer preço.

Alguns dos filhos, declaradamente mais apegados a Seu Raimundinho, organizaram uma festa surpresa para ele, já que o mesmo estava para voltar de uma de suas viagens.

Não demorou para que a comoção em volta dos ensaios e organizações tornassem aquela ideia em um grande evento, assim como não tardou a começar os atritos entre os irmãos. Cada um tinha uma ideia diferente a acrescentar ou diminuir:

-E se nós trouxessemos umas dançarinas exóticas para uma apresentação sensual? Um show erótico? - sugeriu um.
-Mas papai nunca deu a entender que apreciava essas coisas – disse ao que falava, que respondeu:
-O que você sabe sobre isso? Do que ele gosta ou deixa de gostar?
-Ué! É só prestar atenção no que ele ensina prá nós.

Nisso, um outro, disfarçadamente ganancioso se pronuncia:

-Concordo! Ele nos ensina que devemos ser econômicos e prudentes com as finanças. Temos que fazer um fundo de caixa e eu, humildemente, me disponho a guardar esse pequeno mimo...

Muitos concordaram com aquele discurso, mesmo sem entender claramente o que significava e a intenção real daquele discurso. Desta vez, um dos rapazes mais atentos, questionou:

-Mas Seu Raimundinho, quando nos falou de economia, falava para aplicação em nossa própria vida... Qual a relação do que ele nos ensinou com o que você procura fazer? O que isso tem haver com o que papai ensinou?
-É disso que estou falando! - falou o irmão ganancioso, usando tom de acusação – Este não quer fazer a vontade de nosso amado pai! A ganância DELE tenta convencer a vocês, irmãos meus, que não devemos cumprir seu ensinamento... filho desnaturado! Você não o ama como se deve! Se o amasse, daria tudo o que tem pela nossa causa...

Desde então, muitos irmãos começaram a desprezar o pobre rapaz que apenas questionou a estranha proposta, e ainda foi excluído, coisa que Seu Raimundinho jamais faria.

Não foi esse irmão que assumiu a casa onde haveria a festa, graças a Deus, mas com o crescimento financeiro daquele fundo – supostamente – ordenado pelo pai, organizar recepções tornou-se gradativamente algo rentável, e como a causa era nobre - agradar o homem mais respeitável da cidade, tudo aquilo tornava-se gradativamente uma obrigação imposta.

Não demorou muito para anunciarem que o caixa andava baixo, e que eles mesmos teriam que arrebanhar novos adotivos, até que isso se tornou uma obrigação sistematizada.

O tempo passou, e aqueles, os adoráveis filhos de Seu Raimundinho, se tornaram gente estranha, arrogante, manipuladora, indesejável, prepotente, e já nem lembravam o pai, que era companhia tão desejável e admirada em tempos passados.

Um dia, Seu Raimundinho finalmente voltou, mas ninguém o reconheceu, assim como ele não conseguia mais distinguir aquelas pessoas que um dia foram seus filhos. Quando viu um dos mais velhos, chamou-o pelo nome, no que o ex-garoto, com raiva nos olhos, rosnou:

-Que temos nós contigo, Seu Raimundinho, que vem nos atormentar antes do tempo? Não vê que seu retorno aqui nos estorva, nos atrapalha no rentável reino que nós criamos para homenageá-lo?

Imediatamente, os filhos se juntaram, pegaram o pai, levaram para longe da casa e o mataram a pauladas.

Essa estranha história termina com a celebração a um Pai que já não existe no lugar que lhe fora reservado. Para que as coisas continuem tendo êxito, foi necessário destruir gradativamente sua presença e homens que se dizem filhos continuem a ditar e manipular regras por um reino que juram ser Dele... mas não é.