7 de julho de 2010

Como seria Deus andando entre os homens?

 por Zé Luís

E se Deus resolvesse andar entre nós? Digo: se transformar em um ser humano, semelhante aos que criou.

Pelo pouco que o conheço, Ele jamais procuraria nascer nas classes sociais mais abastadas. Não por preconceito contra quem tem melhores condições de vida, mas se Ele é Deus, não teria sentido ele usar ostentações de nosso mundo para revelar o Dele, e nem estar nos lugares mais confortáveis, quando sua criação, em sua maioria, vive sem nada disso.

Escolheria nascer de uma mulher comum, e independente do contexto da História, aceitaria viver cada frio e dor que um recém-nascido passa. Mamaria em seios, evacuaria como todos nós. Por ter entrando na dimensão onde existe o tempo, Deus escolheria sentir os efeitos que o corpo nos impõe a cada instante da vida, inclusive os efeitos do envelhecimento. Sentiria o corpinho de bebê doer após ser carregado no colo por horas, sentiria o tampo do dedão abrir após uma topada numa pedra ao aprender a caminhar pelas estradas.

Sendo Deus, que tem um propósito para tudo o que faz, viria com seu plano traçado, não sendo uma encarnação a passeio, mesmo porque, que diversão seria essa? Deixar de ser o Tudo para ser como uma faísca na existência?

Ele, o homem-Deus, saberia como se portar nas situações mais adversas, e por ser Deus, que ama por ser amor, teria em seu constante respirar, palavras capazes de mudar a história de quem o escutasse, e pela capacidade incomum de mudar histórias, seria, as vezes salvação, as vezes ameaça odiosa ao que está estabelecido e beneficiado, satisfeito com a ilusório conforto precário.

O homem-Perfeito saberia quanto tempo leva para minha cura, e saberia o remédio certo para a ferida oculta, que só ele pode revelar por ser quem É. Falaria com prostitutas e travestis quando meu preconceito garantisse que são indignos, me derrubaria cego quando isso pudesse me beneficiar de alguma maneira, faria meu raciocínio falir diante de uma ação inexplicável, e mesmo assim, não tentaria me convencer com isso que eu deveria adora-lo. Deixaria a escolha em minhas mãos.

Você não poderia pegá-lo de surpresa, pois sendo Ele quem é, sabe o que vai em seus raciocínios, e a intenção deles, e apesar dessa maldade, estaria disposto a reconsiderar, e me perdoar, se eu voltasse atrás.

O brilho dessa alma-Mor não dependeria de equipes de Marketing, nem de uma boa assessoria. Tão pouco precisaria da divulgação correta de sua mensagem, embora o que veríamos seria apenas um homem simples falando a pessoas desdentadas e fétidas.

O homem-Deus não pareceria Deus, mas não poderia ser homem apenas, e compreenderia quando a insanidade de sua criação decidisse destruí-lo. Embora Ele tivesse o controle de tudo, consentiria, permitindo que nossa maldade insana não apenas o mata-se, mas usa-se de tortura e crueldade contra alguém que jamais fez nada de errado enquanto esteve entre nós.

Diante de nós, debaixo da mais profunda dor, não falaria palavrões, ou mesmo olharia com raiva para o agressor após uma paulada que arrancaria-lhe os dentes e partes da pele. Inexplicavelmente, a tortura levaria horas, mas Ele insistiria em ser perfeito.

Olharia com lágrimas e entregaria a alma como todos os homens devem fazer, mas não podem, por não serem maiores do que são.

Se Deus tivesse feito parte da peça que escreveu, certamente, após tantos capítulos, estaria para entrar em cena novamente, já que qualquer de seus personagens parece notar que essa história está chegando ao fim.

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