21 de julho de 2010

É isso que eu digo...


Sentei confortavelmente no ônibus, após um dia de trabalho.

Entro no ponto inicial, e desço no último, fazendo uma viagem de quase uma hora entre uma cidade e outra, o que para mim era um bom momento para ler meus livros. Quando saio do trabalho, o intenso transito já deu trégua e não existe aquele stress da hora do rush.

Tudo ia bem e preparava-me para adiantar bem minhas leituras até que...

Em meio às pessoas que entravam e se sentavam pelos bancos remanescentes, o meu ainda estava vago. Já estava entretido com meu livro quando alguém desabou ao meu lado, catingando a cachaça e cigarro, e me encarando, enquanto tentava se desculpar por ter quase sentado no meu colo. Após gesticular e ensaiar seu discurso, ele disse:

“É isso que eu digo...”

No outro corredor, no banco do lado, um homem que havia entrado com ele o mantinha “sobre controle”. Ao contrário, estava totalmente sóbrio, e sorria complacente com o comportamento de seu ébrio amigo diante dos passageiros que voltavam do serviço.

Pelo que vi, eram amigos de serviço, mas na saída do trabalho, pelo que parece, um deles perdeu o controle na quantidade de bebida que ingeriu.

“É isso que eu digo...” repetiu ele, bocejando com um bafo que jurei ter queimado os pelos da minha sobrancelha. Percebi que ele ensaiava para bater um papo. Eu fingi que estava compenetrado na minha leitura, sem me dar conta que já faziam quinze minutos que eu estava na mesma página.

O ônibus encheu e o ébrio procurava o amigo a cada instante, querendo saber se ele ainda estava ali, no banco do lado, para ajudá-lo a descer no ponto certo, mesmo que para isso precisasse empurrar as pessoas que estavam de pé no coletivo, entre ele e o amigo.

“Durma, rapaz. Relaxe. No momento certo, eu te chamo e a gente pega o 409”.
“É isso que eu digo...” repetiu ele, levantando o dedo indicador.

Não demorou para algumas pessoas começarem a rir, e eu, tentava agora não gargalhar, mesmo com aquele cidadão me espremendo em cada curva, e cochilando no meu ombro. E quando acordava, a frase já era gritada.

Após quase 50 minutos de viagem, já próximo de meu destino, eles desceram, não de forma muito fácil. Quando o amigo o chamou, o bebum cismou de dormir, e por mais que o amigo chamasse, ele não queria levantar. O ponto chegou, o amigo grita:

“Só um minuto motorista: vai descer um deficiente aqui...” e riu, enquanto ele – e eu(sim, tive que ajudar a erguê-lo) - o arrastava para fora, rumo a sua casa, que estava a mais uma condução de distância.

Enquanto desfrutava da “fragrância” que ficou na minha roupa, lembrei a importância de se ter um amigo numa hora dessas. Um dia, já estive naquele estado, e nem estava consciente para saber se alguém estava ali, tomando conta de mim, enquanto dava o maior vexame, incomodando os outros, deixando todo mundo com a catinga de cachaça grudada no nariz.

Quando Jesus prefere amigos a discípulos, é para fazer o papel deste “cuidador”. Andamos sem saber o que falamos, para onde vamos e, em muitos casos, sem a mínima noção do que fazemos. Perfeitos idiotas ensaiando um belo discurso, e se analisarmos nossas reflexões, o máximo que se ouvirá é:

“É isso que eu digo...”

Ele, pacientemente, está lá, pageando os loucos fedorentos que somos, com uma atenção e paciência inexplicável. Se existe um sentido para amizade, parte do princípio de que ela não tem razão para estar lá.

Amizade também é amor.