16 de julho de 2010

Feliz quem pegar seus filhinhos e dar com eles nas pedras


por Zé Luís

Por tradição, antes de conhecer a bíblia, acreditava que haviam livros poéticos que seriam capazes de elevar a alma com seu romântico conteúdo. Pensei: levarei meu novo livro escrito por Deus para uma praça, sentarei num gramado agradável num fim de tarde relaxante, e lerei o primeiro salmo que o acaso me levar a abrir.

Quando li este, confesso que não vi nada bucólico nem relaxante, ainda mais quando a frase que concluí esse desabafo (normalmente usada por céticos para exemplificar erros éticos da bíblia).

Junto aos rios de Babilônia, ali nos assentamos e nos pusemos a chorar, recordando-nos de Sião.


Nos salgueiros que há no meio dela penduramos as nossas harpas, pois ali aqueles que nos levaram cativos nos pediam canções; e os que nos atormentavam, que os alegrássemos, dizendo: Cantai-nos um dos cânticos de Sião.


Mas como entoaremos o cântico do Senhor em terra estrangeira?


Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, esqueça-se a minha destra da sua destreza. Apegue-se-me a língua ao céu da boca, se não me lembrar de ti, se eu não preferir Jerusalém à minha maior alegria.


Lembra-te, Senhor, contra os edomitas, do dia de Jerusalém, porque eles diziam: Arrasai-a, arrasai-a até os seus alicerces. Ah! filha de Babilônia, devastadora; feliz aquele que te retribuir consoante nos fizeste a nós;


Feliz aquele que pegar em teus pequeninos e der com eles nas pedra.

Li e reli aquela mensagem. Afinal de contas: que raios uma mensagem tão amarga fazia em meio às odes cantadas para a celebração a Deus. Um cântico como aquele não podia ser entoado alegremente num culto de domingo. Os cantores evangélicos jamais ministrariam isso com aquele triunfalismo expositório tão típico.

A grande verdade é que Deus aceita nosso desabafo sem a necessidade do uso de máscaras. Eu não precisava disfarçar minha revolta, minha raiva, minha vontade de ver quem me maltrata se arrebentar cheio de dores.

Estranhamente, tal liberdade de pensar, essa aceitação Divina, apesar da amargura que vai na minha alma, acabou me dando certo alívio em algum lugar que respirava em mim.

Eu não precisava fingir ser a pessoa mais calma do mundo– e seria tolo nesta encenação, já que Ele nos sonda e nos conhece.

Para Deus eu não preciso fingir. Quando Ele pergunta o que sinto, não se aborrece se respondo:” Eu detesto aquela pessoa, queria que morresse...”. Entenda: Ele não está aprovando, mas não me condena pelo que sinto.

Por que então, entre nós, ditos filhos Dele, comportamo-nos como se fossemos livres desses sentimentos? Fingimos sermos as pessoas mais desprovidas dos sentimentos causados pela injustiça?