15 de agosto de 2010

Mudanças a vista

cadeiras

 por Zé Luís

Estou prestes a mudar de imóvel. Após vinte anos, volto a morar em um apartamento.

É hora de abrir os armários e guarda-roupas, avaliar tudo que se acumulou em anos, encaixotar aquilo que será levado, botar fora a porcaria acumulada. Pelo menos é assim que deveria ser.

Na prática, é desgastante o processo. Começamos bem, com bom ritmo, mas nos apegamos aos cacos, a pedaços de plástico gasto, a folhas rabiscadas a anos em cadernos velhos e agendas remotas.

Aquela caneta ressequida permanece entulhada entre as velhas revistas guardadas, sabe-se Deus lá porque. Descobrir livros perdidos, encontrar finalmente o bendito relógio sumido, caído atrás da estante.

Existe mais para se desfazer do que imaginei(ou podia admitir). No começo, é rápido: lixo, saco, rua. Mas com o passar das seleções, surge, por exemplo, aquela pantufa ridícula e gasta que insiste em continuar na casa, por mais que toda a família proteste, implorando para que eu abra mão de ser ridículo, tarefa dificílima. Chega o momento de me desfazer da máscara de bruxa feita de silicone, fedendo a pó e a saliva de três anos. Lógico que, apesar da catinga, a coloco e saio pela casa, o que não despertou a menor atenção de meus filhos. Gente insensível.

Conhecendo-me, haverá lixo contrabandeado em minha nova residência, por mais que insistam que eu me desfaça logo das tranqueiras, logo no começo da mudança. Insistem que não vai combinar com o lugar onde viverei. Digo que concordo, enquanto secretamente, duas listas telefônicas de dez anos atrás são embalados junto às panelas e minhas camisa sociais.

Terrível como essa mudança se parece com nossa caminhada com o Mestre: a mudança eminente, e até um pouco indesejada chega, mas insistimos em cultivar velhos – e tolos – hábitos. Levar para uma nova vida – que pode ser – livre de erros contra Deus, utensílios doentios que me levam a viver incompleto, precário, não condizente com a proposta inicial e possível Dele.

Que Deus me dê forças para abdicar de todo lixo que insisto em carregar em minha existência.