12 de agosto de 2010

Sobre divergências teológicas

 por Zé Luís

Há alguns anos, não raro era me encontrar em ferrenhas discussões em um fóruns virtuais. Os temas consistiam em discutir as diferentes formas de compreensão sobre versículos bíblicos, como por exemplo a existência após a morte. Eu cria (e tinha informações bíblicas que me embasavam) que se, alguém morre, sendo salvo, continuaria existindo. Gostava de me imaginar passeando em algum lugar excepcionalmente sublime e incrível.

Meus pontos de vista estavam impregnados deste raciocínio e, quando você conta uma história, não demora a revelar seus contextos pessoais, filosofias, crenças, raciocínios próprios, valores.

Imaginemos um mesmo tema como a morte, com autores de diferenças crenças: um budista vê a morte como um ciclo, onde tudo se une, deixando de existir para se juntar a uma forma indefinível e impessoal.

Um ateu vê a morte como o desligar de um aparelho biológico, o que muito se assemelha aos Testemunhas de Jeová ou Adventistas com sua crença no aniquilacionista. Suas personagens terão esses teor fatalista.

Espíritas creem que nosso fantasma, migrando de vida em vida, numa evolução contínua e infinita, chegará a ponto de poder nascer em um planeta melhor (Rosa-cruzes, por exemplo, tem até um diagrama, que exemplifica o período cíclico de 144 anos, parte na Terra, o restante no “espaço”).

Dessa forma, em defesa de suas crenças próprias, ele exporá – alguns de forma brilhantes, outros, como eu, não – a vida de acordo com seu entendimento, ou a crença de seu meio.

As minhas crenças mostravam uma pós-existência imediata e eu era cristão. Muitos apresentavam seus “contra-versículos”, alegando que eu estaria “dormindo”, e neste atual corpo, renovado de forma especial, reviveria no dia do Juízo. Diziam que minha crença era espiritísmo...

“Por isso te digo que ainda hoje estarás comigo no paraíso” citei, frase do Mestre, enquanto perecia na cruz. Uma evidência que após a morte de cruz, haveria atividade intelectual – não só do Cristo, mas do ladrão que junto perecia; não tardou para surgir no debate até Testemunhas de Jeová, postando traduções e mais traduções sugeridas do grego onde uma vírgula ou dois pontos davam um sentido totalmente diferente, um novo respiro a toda a compreensão daquele grupo que depende da inefabilidade de seus ensinos para continuar crendo que são a escolha certa e única.

Fiquei acabrunhado com tamanha discussão, e tentei levar a discussão para fora dos fóruns, observando bem quem seria capaz de ter alguma informação que embasasse a crença que eu queria ter. Afinal:

Fui salvo, mas deixaria de existir até o Juízo Final, no que eles chamavam de sono. Quantos permaneciam aguardando a volta de Jesus pelos séculos dos séculos, em cemitérios que nem mais existiam, em sociedades que o tempo soterrou .

E o inferno? Hades? Seol? Um grande nada onde Jesus teria ido com suas chaves?!?!

Meus valores desmoronavam e só tinha a bíblia loteada por crenças divergentes de dezenas de grupos que se desdizem sistematicamente. Só não aderi ao ateísmo pela vivência nas ciências ocultas que participei em tempos anteriores.

Foi quando o Ricardo, cliente de um hospital que prestava serviços, que se tornara irmão, conselheiro e amigo, ouvindo pacientemente sobre minha busca por uma resposta, comentou de forma despreocupada:

“Independente do tempo que se possa ficar, se vamos ou não dormir, trabalho nesse hospital e quando um paciente volta de um coma, mesmo após muitos anos, para ele é como se fosse ontem. Pare de gastar seu tempo tentando adivinhar quem está certo. Independente de quem esteja certo, Jesus é por nós. Não vale o desgaste, relaxe...”

Eu o ouvi e abandonei os sistemas de crenças com nomes que me dão status em segui-los.

Não fosse esse cidadão, quem sabe se ainda estaria batalhando com minha lança contra moinhos de vento? Basta-me hoje vivenciar os milagres das coincidências perfeitas e cotidianas, receber respostas de perguntas que não disse, oferecer refrigério a gente que nunca vi.