7 de setembro de 2010

A dor de Lucas e a Graça disso

por Zé Luís

Como ver os filhos evaporarem?
Basta que descubram que há uma quadra de futebol disponível no novo condomínio, e pronto. Somem...

Foi assim logo no primeiro dia, ainda durante a mudança, que dois de meus três filhos desapareceram. Fácil saber onde estavam: bastava ouvir, ao longe, os familiares berros “Passa a bola!”, “Fominha!”, “Olé!”, “seu grosso! Errou essa bola!”. Pobres condôminos...

Eram dez da manhã quando saíram para jogar, e eram cinco da tarde quando o caçula, de dez anos, voltou, chorando, cercado pelos amigos. Havia quebrado o braço (creio que se não tivesse acontecido isso, hoje, uma semana depois, ele ainda estaria lá, correndo atrás da bola).

Querendo acalmá-lo, demos água para o garoto, e levamos até o hospital: a fratura no osso do braço necessitava de cirurgia, e por causa da ingestão da água, devido a anestesia, a cirurgia teria que aguardar algumas horas, mas o pânico do Lucas era apenas esse:

“Vou ter que tomar injeção?”

Conheço o pavor dele por agulhas, mas ele se contorcia de dor pelo osso quase exposto, e se preocupava com a picadinha que trazia o anestésico, o remédio que aliviaria a dor. De outra forma, como fazer a cirurgia?

Não teve jeito: foi debaixo de choro e protestos que a enfermeira aplicou a agulha por onde entrariam os remédios necessários para todo o processo que ocorreria durante a madrugada. Também lamentou o jejum imposto – inclusive de água. Era uma imposição médica.

Após a cirurgia, onde ganhou um pino, demorou para acordar, mas assim que acordou, queria comer. O que tinha, naquela hora, era geléia, que por um milagre ele, que detesta, comeu tudo e enfiou os pacotinhos restantes na bolsa da mãe. Não entendia como algo podia ser tão gostoso. Era uma gentileza que a fome faz.

Eu, como pai, não me agradei de ver meu filho sendo furado, aberto, privado de comer e beber, ficar longe de casa, ter que amargar um gesso incômodo, as dores dos primeiros dias, o medicamento ministrado pelas madrugadas,  durante semanas.

Mas não há outra maneira.

Há situações em que só resta ao Pai permitir um tratamento mais “agressivo”(digo isso com temor e tremor).

Olhamos o mundo desabar a nossa volta, perdemos nossa paz e ganhamos dores. “Por que???”, clamamos com o punho em direção ao céu, questionando a súbita mudança de rumo em nossa existência."Não precisamos de mudanças tão dramáticas, eu era feliz e não sabia..."

Não creio que Deus fique gerando tragédias para nos dar lições de sua Ira. Creio que elas, as tragédias, aconteceriam, e que Deus permite que estejamos inseridas nelas, eventualmente (oras, não nos deparamos em todas, mas eventualmente, alguma pode nos alcançar, mesmo porque não conheço imortais neste mundo, e não há como deixar tudo certo antes da morte). Não imagino o Mestre, em desespero, puxando os cabelos, reclamando: “ E agora? O que farei nessa situação?”. Se um homem é capaz de perceber que não há nada de novo debaixo do sol, como Deus não saberia?

Meu filho ainda reclama do gesso, e quando viu o pino pela primeira vez, na troca da atadura, vomitou.

Já quebrei o braço, mais ou menos naquela idade e sei como é difícil.

O Mestre também passou por aqui, conheceu a dor e a maldade. Ele entende, tenha certeza.