Entre dois reinos
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By Bosniak - Deviantart |
por Zé Luís
Claramente, embora não lhe parecesse errado na época, buscou de forma mercenária os benefícios de poder pedir ao – então – lendário criador de galáxias qualquer coisa. Até então, o acesso era fugaz, relativo, abstrato, impessoal e a mera possibilidade o fez vir e tentar.
A ideia absurda de Deus, filho de Deus, fazendo-se homem para morrer como Deus e homem, quebrando assim regras absolutas e, podendo então, dar-se indefinidamente no lugar daquele que assim o quiser, paraceu-lhe não só plaúsivel, mas aceitável. A chance de ser – não apenas melhor – mas outro, definitivo, límpido, digno de viver eternamente no lugar perfeito primordial. Ele creu. Ponto.
Embora tudo fosse etéreo e místico demais, era incrivelmente compreensivo e transformador. Intimamente omitiu seu desejo da obtenção possível de seu pote de ouro, como mercenário enrustido, e encontrou no – tão raro - sábio discipulador, que o levou a um detalhe:
“Buscai primeiro o Reino...”
Reino consiste em sistema social, eu vivo em um sistema capitalista, regime – supostamente – democrático, leis civis, trabalhistas, criminais. Regras de trânsito e tráfego, e assim por diante.
Regras do Reino cabem nesse mundo: Não matarás pode ser aplicado aqui, no velho mundo, assim como no vindouro. O inverso não. Ele ganhara o direito de andar entre dois mundos.
Muitos aceitam a Jesus como salvador, mas desconhecem as normas o Reino que o fazem Senhor, e miseravelmente se arrastam por este mundo, com entrada garantida no Outro. Continuam com crendices e religiosidades deste tempo, enquanto os benefícios de viver segundo a eternidade são deixados de lado.
Diferentemente, ele obedece, no interesse de cumprir a regra e ir ao que interessa, e até seguiu em seu conhecimento e pormenores do Reino, incluindo a aplicação cotidiana das mesmas, como quem aplica sal em pitadas de suas escolhas. Não foi com pouca surpresa que pecebeu que já não era mais o mesmo.
O antigo mundo, que até então era calado e indiferente, mudou também: começou a mostrar um sorriso interessado, como se tentasse seduzi-lo por raiva ou despeito. Seu hálito, antes atraente, apresentava algo pútrido no final da essência, e o dentes do seu sorriso mundano mostravam lodo e carie. Estranhamente, ele, que como todos, empoeiram os pés na poeira do mundo antigo, sente, as vezes, saudade do cheiro de bosta e carniça, mas anda em dois mundos, como se tivesse raízes e asas, vivendo conflitos comuns de quem ainda não entendeu como um reino pode ser diferente do Outro.
As vozes do velho mundo usam sempre as mesmas decrépitas arapucas, e vão ferindo ilusoriamente os que já são do Reino. Alguns sedem, não abandonaram o sonho mercenário, apresentando uma alma como uma quimera de anjo com alcoolatra, de porno-santa, ou qualquer destas combinações incompatíveis.
Para ele, a lenda inicial tornou-se real, e aquilo que seria acrescentado – como de fato foi– já não eram tão importante, já que viver pelo Reino o transformara gradativamente e comida, moradia, sexo, auto-estima, profissão, foram assumindo reais papeis em seus novos valores, numa escala totalmente diferente das que o levaram em sua busca.
Aos resquícios do velho mundo que ainda se espalham em sua alma, persistem, em sua maioria, por medo. Teme deixar o velho mundo, por conta da mentira religiosa de gente que se diz do Reino e não é, já que pregam medo e não esperança, não suportam a ideia da liberdade humana e não demoram a enfatizar que a Justiça não se atém a Graça. Eles pregam a incerteza.
Por isso, ele – e muitos outros – temem. Se fecharem a porta totalmente, e serem abandonados pelo Pai por ter sido insuficiente para o Céu, restará apenas o inferno, do qual é incompatível.
Vivo na esperança que ele, um dia, possa viver livre da mentira dos que dizem militar pelo Reino, mas negam a certeza da absurda e gloriosa da Graça.
Zé, peço sua licença para reproduzir o artigo em meu blog.
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