22 de setembro de 2010

A espera de um MIlagre ainda hoje



por Zé Luís

Quem acompanha o blog, ou me conhece pessoalmente, sabe que evito ver filmes acompanhado.

Choro aos borbotões até com propaganda de margarina. Filme que cachorrinho morre no final...nossa! Nem pensar...

Meus filhos se divertem às minhas custas, enquanto os ameaço de uma surra se a galhofa não parar. Ninguém me leva a sério.

Semana passada, assisti pela vigésima vez no ano (ainda estamos em Setembro e não estou o tempo todo em casa) o “A espera de um milagre” com Tom Hanks. Peguei o filme bem na parte onde o grande Jonh Coffey é levado a casa do chefe de policia, velho amigo dos policiais da “milha”, na tentativa de usar os poderes milagrosos do detento para a cura de Melinda, a atormentada e terminal esposa.

Ninguém, até o momento, havia visto a tal esposa enferma, mas todos sabiam que a doença a havia transformado em outra pessoa, as dores a haviam tornado imoral, agressiva, murmurante.

O marido tenta impedir aquela ação, sai no meio da madrugada, armado, sem saber o que fazer da visita inusitada, até que a mulher grita de dentro da casa, expondo toda a vergonha do marido diante de seus amigos, mostrando seu semblante envergonhado.

Ele estava pronto para se isolar e viver sozinho a dor de ver seu grande amor definhar, em oculto, morrendo, obscena, imoral. O pavor do marido estava em deixar que outros pudessem ver isso, sua vergonha, seu fracasso.

Quando a solução aparece, ele já não tem forças para impedir seu avanço, nem mesmo apertar o gatilho de sua arma. Sua casa é invadida, seus amigos o consolam, correndo o risco indefinível de um milagre que poderia não passar de uma farsa.

O milagre acontece, e toda a podridão do mal que vai naquela alma se transfere para o detento, que apesar da aparência assustadora, tem a pureza de uma criança.

Chorei.

Nossas histórias mais famosas estão recheadas de redenção. Como não se emocionar? Amigos levam o milagre ao cético, mas só quando ele não tem mais força para impedi-lo.

Ela poderia ser curada antes? Claro. Desde que o milagre tivesse sido-lhe apresentado antes.

Entendo a urgência dos missionários: enquanto não informam sobre o milagre da boa nova, almas padecem, adoentandas pelas desgraças deste mundo, aguardando que o milagre chegue, removendo suas dores, devolvendo-lhes a lucidez, desfazendo feridas purulentas, e levando Nele então, nossas dores, fazendo-nos sarados.

Jonh Coffey é executado no lugar de um psicopata, foi morto por um crime que não cometeu, e todos sabiam disso.

Eu chorei por ele, como sempre faço. Ninguém é capaz de impedir que um Milagre deixe de morrer por nós, enquanto os que ficaram e receberam de seu dom recontam sua história, dia após dia, em parabolas e filmes sem fim.