4 de setembro de 2010

O estranho caso cotidiano da filha da Maria

 por Zé Luís

A Maria implorou para que eu não mencionasse seu nome, nem o de sua pequena filha, Ana. Obviamente, os nomes aqui citados podem ser fictícios.

Ela me contou o caso enquanto me dava carona no retorno do trabalho. Enquanto confessava sua falta de intimidade com às Escrituras, e declarava o quanto tudo aquilo que a confundia, revelou o caso para exemplificar o que dizia:

Há semanas atrás, sua filha, de nove anos, tentava uma bolsa de estudos, entre doze outras crianças numa escola conceito da região. Claro, ela, como uma típica neófita cristã neo pentecostal foi tomada da necessidade de saber a vontade de Deus, queria uma resposta, se sim ou não, e os homens e mulheres “de oração” eram os mais consultados.

Sei que isso é típico, mas me corrói ver que a irresponsabilidade destes – denominados – crentes que usam o parco conhecimento bíblico para orientar gente angustiada como fosse cartomante, ou se o Espírito Santo fosse evocado como os caboclos e pretos velhos da umbanda.

Um revelava, outro des-revelava, até que ela chegou em um daqueles pastores de postura bem triunfalista, que puxou a bíblia e apontou o Salmo 37, 4:

“Se alegra no Senhor, e ele te concederá o desejo do teu coração...”

-Vai lá, irmã! Deus quer dar o que você deseja, independente do que vai em sua alma. É só seguir a regrinha...

Ela estava diante de um pastor, um homem que tinha até vídeo na internet. Foi para casa e acalmou a ansiosa menina que, assim como a mãe, vivia a angustias da véspera de ter que passar por mais peneiras para conquistar a vaga (ela já tinha vencido algumas, e centenas de pessoas já haviam sido desclassificadas).

-Filha, o pastor garantiu que você vai conseguir, Deus disse...

O problema é que a menina não passou. Foi eliminada na última fase, e aos prantos, no travesseiro da sua cama, perguntando por que Deus não a julgou ser suficiente para conceder o desejo de seu coração.

-Deus tem propósito, seu “regozijo” deve ter falhado... - disse o pastor a Maria quando ela notificou a falha do versículo. O problema era a fé da pessoa que “recebeu a Palavra”.

Fiquei imaginando Lázaro, morto a quatro dias, sem um neurônio sequer em seu degenerado corpo, dependendo da própria fé para ressurgir vivo na tumba:

“- Lázaro...sai... Lázaro? Lázaro? Eu sabia, Marta... a fé de seu irmão não é suficiente para voltar a vida...” - diria Jesus?

Gente despreparada tornou-se pastor, sente-se papado evangélico, e faz escola, formando gente menos preparada ainda para serem pastores formatados para falar o que você quer ouvir, apesar disso só fazer, a médio prazo, um religioso burro, ou até mesmo, o mais ferrenho dos ateus.

Ana teve uma experiência ruim, mas lembrará que Deus um dia fechou uma porta, de forma fria, indiferente, deixando-a ser eliminada quando alguém, que talvez nem tenha orado tanto, a ganhou.

Maria continua achando que não foi boa o suficiente, apesar de tentar alertá-la sobre a forma equivocada que a bíblia está sendo transmitida a ela. Isso porque o tal pastor, mestre da auto-ajuda, continua insistindo que a linha de raciocínio na qual ensina, aconselha e exorta , é a correta.