30 de setembro de 2010

Ouvindo vozes...

por Zé Luís

Não gosto de ouvir minha voz em gravações.

Soa-me ruim, anasalada. Quando a emito tenho a impressão de que um barítono está falando, mas ao ouvi-la, parece-me uma mistura de Belchior com o “Quem-Quem” (um garçon fanho, personagem de Chico Anysio).

Comentava sobre esse desconforto em ouvir minha própria voz com um colega de trabalho, que embora tenha uma voz alta, grava, tem a delicadeza efeminada, típica de alguns homossexuais:
-A caixa craniana – explicava ele – tem essa característica. O que ouvimos é o eco de nossa voz dito de dentro de uma espécie de concha, e com o microfone dentro da própria concha, captando o som...

Ou seja, o que emito às pessoas não é o que exatamente elas escultam. Pensava até aquele dia que meu timbre não era aquele que eu emitia. Falava uma coisa, escutava outra.

Mesmo meus pensamentos, aquela voz inaudível que retumba em algum lugar dentro mim, não se parece com o som que emito, ou mesmo com aquilo que ouço em gravações e filmagens.

Os médiuns dizem conseguir discernir outras vozes dentro da própria alma, assim como os esquizofrênicos. Alguns chegam a garantir que elas são muitas, alguns possuem uma legião, ordenando, opinando, desejando. Embora pareçam familiares e humanas, a ponto de nos iludirmos em conviver com isso, não demora, para que as vozes tomem rumos próprios, exigindo reações que nós, que em nosso perfeito estado (seja emocional, mental, espiritual, como queira) jamais tomaríamos. Coisas que um homem não faria em são juízo.

Elas, as vozes, parecem amigáveis, prometem conhecimento sobre as vozes que vão em outras almas, e esse tipo de poder, que é um conhecimento, seduz. É a permissão que eles precisam.

Certo homem, com a força descomunal de uma legião de vozes, viveu (como muitos outros, antes e depois pelos tempos) sob o domínio delas. Assim como qualquer vício, o sussurro – que pensava ser dele – contava coisas simpáticas, inofensivas, e deixou na mente o gosto do “quero mais”, e assim elas começaram a chegar

A brincadeira levou-o gradativamente ao profundo abismo onde as vozes vivem desde a queda: onde os corpos apodrecem, onde homens não podem deter sua força, mas é prisioneiro da própria alma, comendo dos cadáveres que, agora, ordenam. Rasga seu próprio corpo com unhas que viraram garras, como se, inutilmente, buscasse arrancar aquela praga de seu ser.

Foi uma visita fora de hora que estremeceu a escuridão onde morria aos poucos. As vozes, indignadas, se viram obrigadas a debandar, anos de império dissolvidos pela simples presença daquela luz. A voz-mor chegara, sobre todas as outras, e lamentação perversa houve entre a legião que revestia aquela vida: “Que temos nós contigo? Essa visita está fora de hora! Não é o tempo de nossa destruição... por que nos atormentas?” gritavam elas em desespero.

Ele nunca tinha ouvido suas vozes em tamanho pavor, e foi a última vez que as ouviu. Um milagre o trouxera, tateando, de volta a superfície. Ele seguia a voz-mestra, pelo vale da sombra da morte, e não temia mal nenhum, encontrando sua origem, como quem desperta de um pesadelo: um homem com o semblante de paz que não era desse mundo. Ele estava cercado de homens simples: pescadores, terroristas, publicanos, que o encaravam com assombro e admiração.

O homem se viu nú em um cemitério, mas ao contrário do primórdio Adão, não buscou se esconder, antes implorou para ficar com Ele, andar com ele. O caminho de volta ao Éden começava a ser trilhado pelo morador do cemitério da distante cidade de Gadara. Agora em sua alma, só havia permissão de existir uma voz, além da sua.

“Minhas ovelhas reconhecem a minha voz” - revela o Mestre. Sua voz em qualquer lugar nos despertará, basta que Ele se pronuncie e diga, independente da nossa mais profunda morte: “Vêm, sai para fora desta tumba...”

Descansa.