29 de setembro de 2010

A verdade fora da unanimidade

por Zé Luís

Micaías era um daqueles profetas que ninguém queria por perto. Ainda mais quando se precisa de um apoio moral, aquele incentivo providencial, e não apenas saber o que Deus quer, pensa ou vai fazer.

Esse profeta, “Quem é como o Senhor”(esse é o significado de seu nome) não teve um livro entre os chamados maiores, como Isaías, Jeremias, Ezequiel ou Daniel, ou mesmo entre os doze menores. Ele nem estava entre os profetas oficiais do rei Acabe, um rei ruim, quando se preparava para a guerra em aliança com o rei Josafá, um bom rei, representando Israel e Judá.

No habitual e bizarro ritual, os profetas faziam firulas místicas diante de seus governantes, informando ao rei que a próxima batalha a vitória era garantida, com direito até de um deles utilizar um chapéu com chifres, que simbolizava segundo o corno, que seria desta forma que o rei destruiria o inimigo.

Só coisas boas para se ouvir, incentivos e pensamentos positivos. Tudo de bom, clima super animador, nada deprê, nada que desabonasse ou deprimisse.

O rei bom, Josafá, olhava toda aquele show piro-profético, indeciso:
-Será que não teria um que profetizasse em nome do Senhor?

Sim! pasmem: Eram profetas de Baal os que traziam boas novas. Quando li, cheguei a pensar que diante dos reis iam profetas de Jeová, já que agiam como se fossem (ou aparentavam ser). Não passavam de porcarias religiosas de sua esposa, Rainha Jezabel.

-Tem um aí que nunca fala nada de bom sobre mim... - comentou Acabe, mandando chamar o profeta, meio a contragosto.

Micaías chega e repete a ladainha do momento: coisas boas, noticias de vitória e exito.

-Fala logo o que tem para falar, a verdade... - repreende Acabe, que nunca ouvira aquele profeta falar algo de bom a seu respeito. Ele então deslancha:

Vi todo o Israel disperso pelos montes, como ovelhas que não têm pastor; e disse o Senhor: Estes não têm Senhor; torne cada um em paz para casa.

Acabe logo comentou com o outro rei: Não te disse? Este não profetizaria de mim bem, porém mal?

Micaías continuou em seu transe:
-Ouçam o que provém do trono: Vi o Senhor assentado no seu trono, e a todo o exército celestial em pé, à sua volta. Disse Ele então: Quem persuadirá a Acabe, rei de Israel, a que suba e caia em campo inimigo? Os seres opinavam, um de uma maneira, outro de outra. Foi quando um espírito se apresentou diante do Todo-poderoso, oferecendo seus serviços:
-Eu o persuadirei. Sairei e serei um espírito de mentira na boca de todos os seus profetas.

Deus concordou, decretando o sucesso daquela entidade em sua empreitada. Isso foi o que o profeta disse, arrematando sua visão com a seguinte frase:

-O Senhor pôs um espírito de mentira na boca destes teus profetas...

O profeta, pelo que tinha dito, foi agredido pelo outro, o de chifres, ofendido com a visão que chamava-o de mentiroso.

Como profecia legítima, se cumpriu, claro. Como o próprio Micaías disse, se não se cumprisse, não poderia ser inocente, tonando-se ele o próprio espirito de mentira.

Durante os séculos e séculos, em uma espiral temporal ocorrida onde se cultua o Grande Eu Sou, eles surgem, profetas anônimos, distantes, tentando se preservar das agressões por fazer o papel designado pelo próprio Criador. Seria bom se não o recriminássemos por sua resistência a obra, ninguém gosta de apanhar, ainda mais por estar fazendo o que Deus manda.

Eles surgem como o anti-corpo que causa febre em um corpo: Algo de ruim infectou a unidade, e o remédio amargo, a cura, vem e nem sempre de forma agradável.

Como comentado, eles não são bem vindos, não tem para nós uma mensagem de apoio quando não merecemos. São desagradáveis portadores da verdade.

O pior é sabermos que os púlpitos estão recheados deste mesmo espírito de mentira, por ordem do próprio Deus, castigando seu povo, que perece por aceitá-las. Por isso um simples repreensão ao diabo seria patética. Sabemos que ouvimos Baal, pelo Espírito comprovamos de que conhecimento bebemos.

Se o espírito já chegou aos púlpitos, já estamos sobre juízo.

“Eu repreendo a todos que amo...” diz o Mestre. Ele usar discursos desconfortáveis lhe é muito mais característico do que uma mensagem no estilo stand up.

Que nossa oração seja para que consigamos perceber quando Deus estiver nos alertando, independente se o servo que usa seja alguém totalmente fora de propósito, a nossos olhos.

2 Crônicas 18