6 de outubro de 2010

Business is business

por Zé Luís

No calor que gradativamente foi dominando todo o ambiente, Pedro foi apresentado a um assunto que nunca, nem antes da conversão, o interessara. Um grupo bem apessoado chegou, era gente ligada ao amado pastor, e trazia novas informações cruciais sobre o destino do mundo, coisas sobre o fim dos tempos estar acontecendo naquele momento, e como a vida estava próxima do fim.

Pedro era simples, não entendia as coisas, e aquela explanação toda, com áudio, vídeo, fotografias tão impactantes, com imagens de demônios, gente morrendo, caixões... tudo culpa de uma pessoa que poderia ser eleita...

“Era isso então, política...” - interrompeu o crente, saindo do transe e olhando em volta, na escuridão da igreja, que naquele dia não teve culto: passaram o vídeo, com direito a apagar as luzes para ficar parecendo cinema (antigamente cinema era pecado, mas as coisas mudam). Todos ali, boquiabertos, assimilavam tudo com horror nos olhos.

Depois do culto – que não foi culto – Pedro percebeu que alguma coisa nele estava em ebulição, sentiu-se enganado por alguém, mas não entendia direito o que acontecia dentro dele. Seu pastor, homem de quem escolheu ouvir e aceitar coisas absolutas de Deus, estava agora aconselhando sobre coisas que nada tinha haver com isso, embora parecesse se esforçar para isso, como se disso dependesse seu futuro ministérial.

As eleições se foram, os candidatos endemoniados venceram mesmo assim, e nada aconteceu depois. Os tais conselheiros, com seus artefatos tecnológicos e ótima oratória, nunca mais apareceram na igreja,embora Pedro os tenha encontrado, um ano depois, em um prédio de luxo – fazia um serviço de manutenção lá. Ao perguntar sobre a tal Cruzada anti-candidato promovida naquele ano em prol do cristianismo, moral, bons costumes, eles sorriram, sem tentar demonstrar o quanto o assunto era desimportante. “Business is Business” podia-se ouvir na ironia do grupo de pessoas engravatadas, gente que detinha uma famosa rede de marketing e naquele momento, trabalhava em prol da legalização de uma lei, bombardeando os meios de comunicação com opiniões que as pessoas iriam concordar e aderir como sua, em breve. Desta vez, a lei beneficiava coisas que eles denunciavam na eleição como erradas.

Pedro, por mais simples que fosse, percebeu, embora parcial, no que foi envolvido e usado. Revoltado, desde então nunca mais pisou numa igreja, embora as irmãs de oração fossem orar por ele em sua casa, a pedido da esposa, desesperada com atitude desviada.
“Saiam daqui... não quero mais saber de igreja... não percam seu tempo”

Pedro foi radical até o dia em que morreu, fingindo não acreditar em Deus, por conta dos homens que fingiam ser Dele. Morreu antes do cinquenta, cirrose. Voltou a fumar e beber, e era comum ve-lo durante as bebedeiras entoar corinhos da harpa, e chorar, gritando: “Me ajuda, Jesus...”

Dizem que no dia do Juízo foi uma confusão; o tal pastor tentava explicar, já no inferno, o porquê de suas decisões e de como eram necessárias, enquanto o bebum ateu era estranhamente aceito como cidadão do céu... mas isso pode ser apenas lenda....