19 de outubro de 2010

Geni, o Zepelim e os evangélicos.

por Zé Luís

Confesso: ando angustiado diante do atual quadro nestas eleições: votos cristãos sendo disputados de forma jamais vista na história do Brasil. Os púlpitos viraram palanque de cabos eleitorais onde haviam antes pastores e mestres da Palavra.

A forma de ganhar o voto – efetiva por sinal – são histórias instigando o medo, desenhando um futuro infernal, onde leis injustas obrigarão a “igreja” a se diminuir, ou descaracterizarão o estilo cristão de ser(?).

Diante desta minha ansiedade, ouvi de outro blogueiro que isso é motivo de regozijo entre nós, evangélicos, os que estão em posição de virar, ou não, o jogo eleitoral, e que deveríamos aproveitar esse momento de evidência em nosso país.

Ouvindo isso, veio a mim a música do Chico Buarque, “Geni e o Zepelim”.

Desde criança, quando meu pai colocava o vinil no “3 em 1”, ouvia o cômico drama, mas a história cantada fez muito mais sentido do que nunca naquele momento:

A Geni, conhecida promíscua de sua comunidade, nunca foi de se negar a deitar com ninguém. A cidade, que tão bem conhecia sua vida, gostava de dizer que ela era “boa de apanhar, de cuspir, maldita Geni!!!”

Até que um dia, um militar veio a cidade, fazendo o papel de carrasco do Juízo final. Avisou que, com seu bélico Zepelim, um imenso balão com 2000 canhões, destruiria tudo por conta da iniquidade que nela abundava.

Isso só não aconteceu por ele viu a Geni, e em troca de uma noite de sexo com a mesma, não destruiria tudo que ali existia.

Geni, que era tida como praticante até da zoofilia, tinha restrições – na verdade, verdadeira repugnância – a deitar-se com aquele tipo de criatura vil, o militar (nítida provocação ao governo militarista da época).

É nesse ponto que a igreja pode ser comparada:
Naquele dia, a classe mais abastada e nobre da cidade foi implorar aos pés da promíscua diva que abrisse uma exceção e transasse com o carrasco: a cidade em romaria, o banqueiro e até o padre local, de joelhos. Ela então era a “bendita Geni”.

Ela se submeteu ao homem, e este, cumpre sua promessa, deixando a cidade continuar em sua rotina normal. Mal tinha feito o sacrifício por sua comunidade, tentava dormir, mas não conseguiu: ela havia, novamente, transformado-se na “maldita Geni” pela boca do povo que a tinha até como santa quando dela precisou.

A igreja do Senhor, procurada por políticos para conseguir vencer o dono do Zepelim ainda não entendeu que tem de ser preciosa apenas para seu noivo, anda se prostituindo atrás de seus “homens de Deus”, para colocar este ou aquele líder na liderança política.

Somos a Geni que se sacrifica para fazer o que a cidade nos pede com lágrimas nos olhos, sem imaginar que quando esse período passar, voltaremos a ser àquela a quem o mundo odeia, que quer jogar pedra e fezes, como a música bem conta.

De antemão, estou envergonhado: Geni era meretriz, uma grande meretriz. Quando nos vendemos a troco da coisa que seja, o que passamos a ser? Em Apocalipse, a grande meretriz é citada. Será que caminhamos para nos tornar isso? A noiva está disponível para ser usada por qualquer outro que não seja Jesus, o noivo? O que Ele diria se nos visse chafurdando neste lamaçal que momentaneamente nos dá evidência?

Deixo as perguntas para que cada um responda de forma individual, e não conduzidas para que uma massa replique sem saber do que fala.