30 de outubro de 2010

O preço de cada um

por Zé Luís

Quando solteiro – a muito, muito tempo atrás, quando Jesus era apenas um nome indesejável em minha vida, um filme que estava em evidência era “Proposta indecente”, onde um milionário oferecia um milhão de dólares para passar uma noite na cama com Demi Moore, graciosa esposa de um moço chato e pobre. Era o assunto em todos os lugares(claro, na época a Globo dava bastante destaque ao filme).

Por conta do assunto, um incidente ocorreu, na época, numa empresa onde trabalhei: um rapaz conversava com a telefonista da empresa sobre o tema do filme, onde ela confirmava com todas as letras:
-Por um milhão de dólares? Já tinha ido meu amigo... nossa! O que é isso? - perguntou ela ao ver os dez cruzeiros que o moço jogara em seu colo.
-Para você deitar comigo...rapidinho... meia hora...
-Você tá pensando que eu sou o quê! - rosnou ela, com dedo em riste abanando em seu rosto. Ele , calmo, pega malicioso o dinheiro de volta.
-O que é nós já sabemos. A questão agora é acertar o preço...

A velha questão de que cada um ter seu preço é cíclico e não deixa de ser atual: está entrelaçado com moral e ganância, a necessidade que justifica a atitude claramente vil, a antiga lenda de vender a alma ao diabo – como se a fosse nossa – a troco de alguma coisa impossível (como sele fosse capaz de nos dar essas coisas ou pessoas).

Certamente, as igrejas se apinham por conta destas trocas mercenárias: está bem claro todos os atributos de Deus, seu poder ilimitado, sua capacidade de reverter QUALQUER situação, se assim Ele quiser: basta que você faça a oração certa, aquela que O comova, como se jogasse pedras na janela de seu castelo, esperando que apareça e possamos pedir nossa coisa importante. Pelo menos, é assim que pintaram Deus.

Vou a Deus, e espero um benefício, faço promessas, barganho sacrifícios para pagar o presente: serei bom, honesto, viverei segundo o conceito do que é religiosamente correto. Falarei de coisas espirituais, serei ovelha... desde que me torne imune às dores que a vida traz. Faço qualquer trato, desde que Você me forneça os bens...

Quando a frustração chegar então, por andar naquele caminho que inventamos, e nos enganar com a ilusão que nossa teimosia obriga o Mestre a estar lá – e não estiver, então nosso ego tomará rumos piores: reclamaremos abertamente das atitudes de um deus – que certamente não existe, fingiremos estarmos satisfeitos com nosso discurso mercenário sobre metodologias inequívocas sobre o mecanismo que põe o Criador contra a parede, e o obriga a realizar nossos desejos pessoais e mesquinhos.

Quando se põe um preço qualquer para permanecer com Deus só mostra quem somos, independente da aparente nobreza de nossas razões.

Por isso aquele que crê, será salvo, e o que não, já está condenado, sem juízes nem juri: o que somos já está claro a nós e a Ele: é apenas uma questão de se abanar o preço certo.