9 de outubro de 2010

Para Janaína Negreiros, Estocolmo, Suécia

Oi, Jana. Tudo Bem?

Da última vez que conversamos, você me perguntou sobre como estava sendo o processo de eleição este ano aqui no Brasil. Pensei que tudo ia na maior normalidade, mas ainda faltavam algumas semanas quando você me perguntou, e jamais imaginaria que haveria um segundo turno da forma que aconteceu. Lembra daqueles “escândalos” de última hora? Então... de novo...

Confesso, mana:
Fiquei envergonhado com meu país, e ainda mais com o grupo na qual faço parte: os evangélicos. Aconteceu de novo...vocês já devem saber aí, né? Mas por favor, não me conte entre os religiosos manipulados. Se você conhece um pouco sobre teu irmão, sabe que as aulas sobre políticas que você me deu não foram desperdiçadas.

Sempre alerto, quando possível, sobre o que o jornalismo brasileiro divulga está comprometido com interesses deste ou daquele partido, mas não demora que algum crente me acuse de ser uma vergonha quando assumo posições que vão de encontro ao que os pastores recomendaram.

Acredita que as lideranças nas igrejas reuniram os membros para passar um vídeo forjado? Convenceram a maioria dos crentes que uma conspiração mundial estava sendo arquitetada e a única forma de acabar com isso era tirar o atual governo do poder.

Ainda lembro quando você me disse:

“Esses pastores... Eles também escolhem as músicas e os estilos que vocês ouvem? Os americanos faziam isso nos anos cinquenta, quando Elvis Presley era o diabo. Suas danças do inferno encantavam a mocidade de então. Tempos depois, tantas bandas, recomendadas por suas produtoras, assumiram serem diabólicas – já que essa publicidade era lucrativa. Estranhamente, a coisa foi abandonada, e a caça às bruxas perdeu a razão de ser.

No Brasil, por exemplo, a bola da vez, quando tantas músicas americanas cantadas entre os brasileiros declaravam obscenidades e maldições(tudo bem: cantamos em idiomas que male-má conseguimos pronunciar, diga-se lá traduzir), preferiam achar satanismo na apresentadora Xuxa, por exemplo.

Por isso, Jú, encontrar Cristo foi muito mais fácil na Suécia, mesmo com 70% da população ateia. No Brasil, com tantas esquisitisses e claras manipulações, tanto mercenário oferecendo salvação a troco de oferta, não consegui. Acho estranho que essa onda verde se declare a parte esclarecida da população: a maioria é de evangélicos, identificados com o biotipo assembleiano da candidata. Além de um numero enorme ainda acreditar em mula-sem-cabeça e saci-pererê..”

É Janaína. Nem falei com a Lena a respeito do que aconteceu. Como explicar a ela o que meus irmãos estão fazendo? Vendo demônios em tudo, como na idade média?

“Os pastores oraram e Deus falou para se livrar do tal partido, que não é Dele...”. Sinto-me ridículo, e chega um ponto em minha caminhada cristã que ponho a prova toda a ombridade destes homens esclarecidos, que se dizem servos de Deus. Eles sabiam das mentiras e mesmo assim compactuaram, Jana!

E se eu te contar que foram os mesmos boatos de eleições passadas? Você acredita? Nem se deram ao trabalho de reciclá-los. Nos vídeos, sempre tiveram o cuidado de usar bem esta palavra: “pastor”, frisando. Descobriram que esse “termo” tem um grande apelo entre os crentes

Bom, você sabe como é o processo de manipulação, você estudou isso nas faculdades européias. O pior é saber que o Brasil continua fornecendo material para os europeus se divertirem: a mesma imprensa, a mesma mídia, os mesmos canais do inferno ditam aos crentes o que fazer. Dá para acreditar?

Encerro por aqui, os meninos estão bem, mas existe a possibilidade de corte na empresa. Pelo que entendi, tudo depende do rumo que a política tomara. Prefiro conversar com você sobre isso por telefone.

Beijo pra ti, pro Klas, Maia e Luara.