25 de outubro de 2010

Um dia pronto desde o início dos tempos

por Zé Luís

Era o eterno dia do Juízo quando o resplandecente Cordeiro surgiu, com a mesma aparência que teve quando homem, embora não houvesse entre todos ali a necessidade de apresentações: era vê-lo e reconhecê-lo. Ele tinha tudo do Pai, que não foi humano, mas todos sabiam quem era naquele lugar. Era como se reconhecessem em definitivo aquela presença oculta que acompanhou-os por toda a vida.

Embora estivesse ali a população de todas as eras e lugares, o tempo estagnado como era comum na nova dimensão, não havia o abafamento angustioso das grandes multidões, assim como não havia como se esconder ou ocultar nenhum pensamento, ou mesmo o real motivo daquelas tantas opiniões. Tudo ficava aberto, exposto, nú, as claras: cada ação, pecado, paixão e vergonha.

Foi quando o Mestre pos-se a falar a todos os milhares de milhares, embora fosse como se cochichasse a alguns, gritasse a outros, cantarolasse, e assim causando as sensações mais multiformes, de acordo com a alma que recebia, embora fosse a mesmíssima voz.

Contava a versão de uma conhecida parabola Dele, já que todos instintivamente sabiam que o que deixara em sua missão na Terra fora suficiente, e portanto, nada novo precisava ser contado:

“Eis que dois homens oravam a seu Deus, como fazem os homens em suas conversas nos dias de angustia:

Um deles falava dele para ele mesmo, aos berros, diante de seus admiradores, dizendo: Obrigado Deus por eu ser tão bom a ponto de não lhe aborrecer com mesquinharias ou pecados. Obrigado por não ter entre os meus nenhuma quenga, ou veado, ou adultero, fornicador, viciado, ou ateu de qualquer espécie assim como qualquer outro tipo de religião ou crença que não tenha sido devidamente debelado das proximidades de meu ser. Mantive-me casado, apesar dos pesares, e mantive meus filhos nas rédias que o Senhor me deste. Tinha suas regras como minhas e as cumpri à risca. Sou capaz de dizer, meu bom Deus, que sua presença na minha vida é dispensável, já que fui o melhor aluno, e agora, sou um mestre melhor ainda...Quanto às mentiras, Senhor... as mentiras? Tu o sabes, tu sabes que os fins justificam os meios...

Já o outro, encolhido, detestando tudo no homem santo que falava , apenas chorava, enquanto machucava os dedos com os tocos de unhas que sobravam. Sua prece secreta e íntima não podia ser expressada em palavras: ele queria aquele Deus, mas não queria se tornar arrogante como aquele que a sua frente se gabava por sua pessoal majestade. Ele era um daqueles no qual o auto-intitulado homem de Deus se gabava em não ser: era o veado, a prostituta, o víciado, o agressor, o maldito que precisava de cura, mas não tinha com o que lutar, já que aquele a quem o Mestre chamara para ensinar estava agora se vangloriando diante de seus seguidores.”

Ao dizer isso, os réus perceberam que estavam inexplicavelmente divididos em dois grandes grupos: os que se sentiam bons o suficiente para não precisarem de Deus, e os que se submeteriam ao Juízo de Deus, já que eles viam nisso a única chance possível de se safarem de suas assumidas canalhices.

Nisso, os suficientes começaram a se alegrar com sua aparente vitória, mas perceberam que o Cordeiro se ia com o outro grupo, como quem conduz um imenso rebanho, levando a imensa luz que tudo revelava, o que causou um certo alívio aos que ficaram, mas uma punhalada no ego:

-Ei! O Senhor nos deixa aqui? Escolhe esse grupo horrível, gente assumidamente mesquinha? Alguns aqui, em teu nome, fizeram Tua obra, obedeceram seus mandamentos e expulsaram até demônios! e corriam a puxar as orlas do imenso manto de luz que inundava o ambiente. O Mestre virou-se, afastando o manto do toque maldoso daqueles seres:

-Nunca tive conhecimento de vocês. Esse novo Reino não é extensão do mundo passado, ele não cabe para vocês. É um lugar de gente que se reconhece, que se admite, e que assim pode ser justificado. Vocês, bodes, são incorrigíveis, creem convictamente que o errado sou Eu. Imaginam assim por não saberem quem sou, e mesmo que soubessem, não nos aceitariam.

Deu uma leve pausa, como quem respira:

-Bodes: aqui não é como a Terra, não nos adequaremos a sua vontade. Por isso, a alternativa para vocês não seria o céu. O paraíso, para vocês, esse sim, seria o inferno...

Dizendo isso a visão ficou turva, as luzes se derreteram...

Eram três horas da manhã. Acordei molhado de suor, embora a brisa gelada entrasse pela janela escancarada.

3 comentários:

  1. Zé Luiz,

    É por estas e outras que me tornei leitor assíduo e seguidor do Cristão Confuso! Parabéns meu irmão, e que Deus continue sempre ministrando mensagens como estas através de seu ministério.
    Graça e PAZ

    Ah, com sua permissão, vou reproduzir no CALEBE, ok?

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  2. PoiZÉ...

    Tem certos textos na "blogosfera" que ainda nos preenchem.

    Este é um deles...

    Abs,

    R.

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  3. Zé Luís e seus sonhos... diante da hierarquia divina a razão e a justiça humana são falaciosas. Sempre inspirado, sempre edificante!

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