4 de novembro de 2010

Diário de bordo: O estabacado

por Zé Luís

Aquele dia, Zé chegou todo sujo ao trabalho.

Que isto sirva de alerta a você, senhor de quarenta, barrigudo, sedentário, que carrega uma pilha de livros para ler em sua viagem de ônibus. Você, que ao ver a condução com o motor ligado no ponto, acredita que ele está partindo, e pensa que pode correr como fazia aos vinte anos, sem se lembrar que seus sapatos sociais foram feitos para escorregar nessas ocasiões.

De qualquer forma, tudo acontece muito rápido: você está lá, cantarolando algo – que esquece instantaneamente após o evento (não me pergunte, eu realmente não lembro, mas já fazia uns dez minutos que desgraçava a pobre canção) e de repente, após alguns passos mais rápidos, se vê espalhado entre o meio fio e o asfalto.

A única coisa que você lembra é da tentativa mental frustrada de manter-se em pé. Olhando a sua volta, as primeiras averiguações são as piores: nádega e cotovelo ralado no asfalto, os livros – e todos os anexos e conteúdos escondidos em suas páginas – se espalham pelo chão, assim como seu celular se espatifa em três pedaços.

Você tenta se levantar rápido, manter a postura, mas é tarde: o tal ônibus tem suas janelas preenchidas com varias cabecinhas que assistem a triste cena – pelo menos para mim, arrasada pessoa, que acabara de sair devidamente banhada e perfumada de casa – e tenta urgentemente se recompor: Minha pressa em pegar o ônibus ainda existia (o que descobri ser desnecessária: embora minha condução estivesse com o motor ligado, o motorista estava fora do veículo, conversando com outros colegas de sua profissão, e podia garantir que falavam de certo tombo.

Ao subir, podia-se ver os rostos familiares pela rotina de todos os dias olhando cinicamente para a paisagem inexistente. Claro, depois que o cobrador perguntou se eu não tinha deixado nada no local, um dos passageiros gritou lá do fundo:
-Tava tentando entrar no ônibus pelo assoalho?

Estranhamente, meu espírito não amaldiçoou meu dia, como seria comum quando se é humilhado pelas circunstâncias. Avaliei os estragos na “Montanha Mágica” de Thomas Mann, e prossegui a viagem, de quase uma hora até o serviço, onde diverti a todos com esta história.

Minha pequena tragédia pessoal, apesar dos hematomas, deu-me sorrisos. Se o diabo estivesse nesse negócio? O que diria? Falhou de novo, sujeito.

Se fosse Deus? Obrigado. Não entendi a mensagem – ou talvez sim...né? - mas fiz do limão a limonada e servi para os que comigo estavam.