2 de novembro de 2010

A inexplicável presença dela


por Zé Luís

Se você veio do passado, certamente não entenderá boa parte destes escritos: Eles falam de pessoas virtuais, de conversas estranhas entre amigos desconhecidos. Foram escritos em 2010. Porém, se está no futuro, certamente achará totalmente improcedente e desnecessário esse alerta.

Sentada ao seu lado, a bela moça sentia os calafrios deprimentes de sua presença; conversava com dezenas de amigos, íntimos e descartáveis, pela janela de seu computador portátil na madrugada da vida. A TV, ligada como um aquário, repetia pela milésima vez um filme que fora aclamado há quase uma década, embora as personagens permanecessem em silêncio, ordenados pela tecla do controle.

Em seu semblante, quando em vez, um leve sorriso se esboçava, embora exagerasse ao responder as perguntas engraçadas com um numero de “kas” - descrevendo uma sonora gargalhada que não deu. Ela respondia, e - as vezes - correspondia a mais sórdida e maliciosa cantada, enquanto ria-se de uma frase desconexa de outro, e se emocionava com um texto exposto em um canto da tela.

Não eram pessoas, eram rostos, sorrisos, símbolos, ícones. Tudo isso roubava-lhe o sono, fugidio quando encontravasse com seu travesseiro. Inconformava-se em ter que admitir que aquela presença abraçava-lhe os ombros, deixando-a subitamente triste, olhos marejantes, causando uma raiva súbita e passageira, mantendo-lhe ali, como acorrentada diante da tela.

Despediu-se de seus amigos, e a cada um, mostrou a máscara necessária: a imoral e profana, a moral e religiosa, a simpática, a conselheira. Escondeu com todas estas o verdadeiro semblante, a da angustia e tristeza, inconvenientes em qualquer festa ou alegria inventada, e quando a janela se fechou, percebeu a sala silenciosa, a TV incompreensível e o abraço daquele fantasma lhe sufocando cada vez mais:
-Você não tem que estar aqui! Tenho tudo para que você não esteja aqui: Meu marido dorme em paz, sou querida em meu trabalho, conhecida sou pela minha firmeza e força...o que quer?

O fantasma nada dizia, como convém às alucinações.

-Quer saber? Sei que a culpa é sua, a busca desesperada em fugir de sua mão, mas não sei o que trouxe a mim. Jamais imaginei que algo pudesse tão horrível a ponto de da morte ser mais agradável do que com você. Faço coisas horríveis sim mas,... para me livrar de você. É quando a culpa chega, e vocês, juntas, caçoam de meu desespero, arrastando-me a opressão com seus argumentos que me justificam e condenam, alternadamente, nesse jogo desgraçamente perverso. Meu próprio marido reclama de você... como pode? Estou aqui! Mas eu... ah! Sou torturada a cada momento... quantas soluções meu corpo pode me prometer enganosamente? Maldita...você me adoece...

Ficou sentada, em absoluto e silencioso diálogo com o silencioso fantasma que assola a todos, irresistível em sua gélida força, causando na alma da atormentada mulher raiva contra pessoas que não mereciam, mas que trazia a sensação de justiça, mesmo sendo apenas uma vingança injustificada. Tornou a ligar o computador, pôs-se a procurar o moço indecente, que lhe falava obscenidades do outro lado a pouco, mas o mesmo fantasma também o abraçava lá, do outro lado da conexão, em algum lugar do planeta. Era mais um na multidão de zumbis doentios que se multiplicam pela rede, lamentando sua condição em outra fria cama.

O marido nem percebeu quando a mulher se deitou, ou mesmo se mexeu quando o soluço do choro fez um, falsete mais alto.

Assim, em meio ás lágrimas, adormeceu mais uma vez – sabe Deus até quando – sem notar que haviam outras presenças na casa além do inexplicável fantasma da Solidão. Havia a agradável Esperança, inodora, insípida e incolor, e talvez por isso, por servir apenas para matar a sede, sua salvação tão efetiva era desprezada: as soluções que a solidão oferecia eram sujas e vingativas, mas traziam respostas às dúvidas e fantasias não vividas, além de vingarem muitas frustrações e magoas causadas pelo trabalho deste monstro na vida de seu marido, por exemplo.

De noite, sonhou. Sonho simples como os de criança, que a muito não tinha: era o velho amigo sem rosto visível, pois sempre estava ao seu lado - desconhecido a ela, quando acordada - e sempre presente nos sonhos de sua adolescência. Ele a ouvia, apenas ouvia, enquanto andavam pela rua de sua infância: brincavam de pique-esconde entre os carros velhos estacionados na viela pavimentada com paralelepípedos. Foi quando a presença tornou-se maior, um colo, embora seu rosto nunca pudesse ser visto, e não houvesse necessidade disso.

Sem palavras, chorou por ter a sensação que aquilo era o perdão que precisava, e essa sensação fez com que o peso do mundo, com as obrigações, as tramoias, os maus projetos, pudessem ser abandonados instantaneamente. Ela estava em paz novamente, como um dia esteve, mas não lembrava quando.

O marido nada entendeu quando despertou com o cheiro de café fresco, trazido na caneca pela disposta mulher, que acordou primeiro, como a muito tempo não fazia.

Sem saber, ela percebeu finalmente a esperança que em toda casa há, deixando a solidão, presente, sem força alguma.

Por isso, essa pequena parábola foi contada, pois nisso está novidade: era o dia em que a Esperança, outra presença inexplicável, restaurou, a mando do Mestre, uma casa em meio a milhares que esperam esse encontro tão comum, tão possível, tão raro.

4 comentários:

  1. Além de mim, quantas mulheres são retratadas nesse texto...

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  2. PoiZÉ...

    Viajei com esse texto.

    Caramba!

    São tantas as nuances...

    Já li e reli e cada vez que leio capto algo diferente.

    É muito denso e profundo a começar pelo título que dá margem ao leitor fazer suas próprias viagens, reflexões e conclusões.

    Não tem como não se identificar em algumas linhas...

    A parte boa é que a Esperança provoca o choro que cura, que limpa a alma, denunciando a cilada da Solidão. E, à medida que vai libertando-a de todo esse peso doentio, a paz vai se instalando.

    Bela poesia em forma de prosa.

    Valeu!

    R.

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  3. A minha esperança é que Deus enxugará dos olhos toda a lágrima.

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