11 de novembro de 2010

No caminho do trabalho

por Zé Luís

Assim que a moça se levantou, corri a sentar na vaga que ela deixou no banco do ônibus. Precisava tirar a limpo aquela história.

Estava no meio da viagem quando o assunto no banco da minha frente começou a me incomodar. A mulher, ao que parecia, noiva, lamentava a sorte de um futuro marido dado a costumes que a desagradavam.

Desabafava lamentosamente as brigas que constantemente tinham, assim como a total indiferença a seus gostos e desejos. Defendia que o casamento era solução para as mudanças de comportamento, e por isso, nisso estava depositado sua esperança.

A bebida e os sumiços faziam parte daquele cotidiano, e ela, que também não era santa, dava suas escapadas, justificando tudo isso por conta de sua mágoa acumulada naquele homem que pretendia estar pelos anos restantes de sua vida.

-Eu o amo! Amo? Amo... - falava como se não conseguisse manter o mais insignificante dos pensamentos dentro da boca, assumia um ar maliciosamente solene, como se confiasse em algo dentro dela, capaz de transformar a situação que até agora não tinha remédio. Mudando de assunto, perguntou: quando voltarei a estudar?

Repentinamente, levantou-se, dando sinal para o motorista. Ignorou totalmente seu ouvinte, e saiu como se nunca tivesse existido. Apesar disso, minha indignação era com este ouvinte. Sentei ao lado Dele e antes mesmo que protestasse, fiquei desmontado com seu olhar. Calei-me. O que poderia dizer?

O motivo da minha indignação era o silêncio diante de questões tão básicas como aquela. Custava-lhe evitar toda a dor de um casamento que possivelmente não daria certo? Quando que um casamento, um filho, um emprego, um carro, faz-nos melhores? Uma realização momentânea, mas assim como as dores, também acabamos nos adaptando, e tornado-nos insatisfeitos novamente.

Questionar o porque de deixá-la no engano, quando o medo de ficar sem um companheiro na velhice não estava se confundindo com o que ela chamava de amor. Parecia tão cruel deixa-la sofrer todas as dores de um futuro provavelmente amargo, triste, infeliz, com um sujeito que amava mais seus vícios do que ela mesma. Era tão nítido...

E a confiança que tinha em si mesma? Por que Ele não repreendeu tamanha soberba imbecil? Como aquela moça poderia garantir que seu futuro estaria garantido se nem era capaz de organizar seus pensamentos? Que entende ela sobre a aleatoriedade da vida? De como a vida não tem compromisso com os nossos compromissos.

Queria perguntar para Deus, sentado ali, me encarando, por que não abriu os olhos dela, mas quando o encarei esqueci o que ia falar. Na verdade, desisti. Sou homem: os caminhos do Caminho não são os meus se os meus não estão Nele. Por isso não entendo seu silêncio.

Não entendo que falar e falar não fará a pobre moça - fadada a um casamento fracassado - desistir de seu destino. Antes, ela se agarraria mais e mais, em teimosa persistência. Certamente, ela desconversaria do conselho, diria que ela o ama e por isso só tem esse destino, diria que Ele não entende o quanto ela quer aquela situação, o quanto aquilo é importante. Só não saberia explicar o porquê( por que certamente nem ela sabe. Talvez nem queira...)

No final, pude entender que poderia ser pior: ela poderia até faltar com respeito com aquela doce Pessoa.
Fui me levantando, com uma vergonha de ter pensado em repreender meu Senhor:
-Por isso criei o agrupamento em meu Nome...
-Senhor?
-Junior...

Ele me chamou pelo nome que sou conhecido só entre meus íntimos. Meus olhos marejaram, mas entendi que o tal ajuntamento tinha um nome, um nome que cada vez mais se torna amarga em meu paladar. Igreja. Sei que ele sabia disso, mas mesmo assim, achou-me digno – sabe só Ele porque – e explicou com sua voz que todo ser humano conhece:

-Vocês, a quem dou a oportunidade de me conhecer... poderiam aproveitar o ajuntamento e cuidar dos outros...amar ao próximo como a si mesmo. Se você sabia o que dizer, deveria ter dito. Nunca defendi farisaísmo. Não querem que seja o conselheiro de ninguém, sejam apenas irmãos, e se curem, e cresçam...

O ônibus chegou ao meu destino, e assim como a mulher, saí sem me despedir, deixando aquele olhar intenso como se não tivesse sido encarado. Desci, mas pude ver que alguém, que ouvia minha conversa correu a sentar ao lado Dele. O ônibus se foi enquanto aquele milagre nem pareceu ter acontecido.

4 comentários:

  1. Que linda postagem...
    "Não querem que seja o conselheiro de ninguém, sejam apenas irmãos, e se curem, e cresçam... "
    Isso é que precisamos...
    Abraço!

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  2. Crescer, chorar, ouvir, apoiar nossa familia de fé, isso é ser cristão. Mesmo confusos. Valeu!

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  3. PoiZÉ...

    Como diria a frase que afanei lá do blog da Dri:

    Conheça a todas as teorias,

    domine todas as técnicas,

    mas ao tocar uma alma humana,

    seja apenas outra alma humana.

    (Carl Gustav Jung)

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  4. Este texto "No caminho do trabalho" é uma lição de vida...Gostei muito!

    Bjão Zé... amo seu blog!

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