15 de novembro de 2010

A ordem dos fatores e a alteração do produto

por Zé Luís

 Por Zé Luís 

Há pessoas com ótimo conhecimento das Escrituras, a ponto de garantir que as tem em sua memória de tal forma que poderia recitá-la de traz para frente, tamanha a assimilação da mesma.

Acho que conheço algumas destas, e creio que você também já as deve ter visto: Citam a ordem do Mestre para que fossemos prudentes como as serpentes e pacíficas como as pombas, as praticando como de traz para frente, tendo a prudência de uma pomba -  que cisca em em meio a perigosa avenida movimentada - e tem a atitude em seu semblante de verdadeiras víboras quando enfrentadas, mostrando as presas e pingando veneno.

Sim: a ordem dos fatores, neste caso, altera o resultado do produto.

Um outro exemplo que gosto muito é quando Jesus cita o seguinte versículo:
"Onde está o seu tesouro, ali estará o seu coração!" Lc 12,34
É comum, quando citado, inverterem o sentido, pois é mais compreensível que dentro de nossos sentimentos  já resida nossos verdadeiros valores(o que não é de todo errado). Mas o sentido em que o Sumo Pastor tinha em mente era outro:

Já percebeu como começam as grandes paixões? Não me refiro apenas ao amor erótico, mas as devoções por pessoas, bandas, times, tatuagens, animais, partidos, ideologias, objetos...

No início é apenas um leve interesse, algo modesto, moderado e que nos agrada gradativamente. A pessoa acompanha uma partida de futebol, e começa a admirar seus jogadores, interessar-se pela história do clube, usar o uniforme no trabalho, tatua o emblema no peito. Outras assistem um Reality Show sem pretensões de acompanhar a cotidiana trama de ir ao banheiro ou arrotar em público, e logo se envolve nos conflitos íntimos e compactua com as opiniões de totais estranhos. Ela se compadece de uns e detesta outros.

O coração foi para onde ele tornou tesouro.

A maioria nos casos amorosos começam em um pequeno interesse, um cheiro agradável, um telefonema a mais, uma descoberta de pecados em comum, um gostar de conversar sobre um assunto totalmente comum. Sempre nos conduz a nos interessarmos mais e mais, por que nos valorizamos, e então, nossa alma se apaixona.

Aquilo passa a ter valor, e quando o valor se torna prioridade, nossa alma – o significado da palavra “coração” no Novo Testamento – se apega.

O Mestre no sermão da montanha ensina os mecanismos do ser que criou, e nada mais oportuno do que mostrar como funciona nosso “querer”, e de que forma algo é criado em nosso íntimo.

Vemos pessoas ardendo em paixões onde antes houve um pequeno e agradável flerte, ou mesmo o ódio que nos dá a sensação de força, pode ser um tesouro no qual seu coração desejará estar. É uma questão de cultivo, pois a alma corre atrás de nossos valores.

Paulo alegava que Deus opera em nós tanto o querer como o efetuar, o que já tive a oportunidade de comprovar. Fazer deste querer um tesouro, a ponto de querermos inundar a nossa existência depende do que somos. Nossos olhos estão compostos das mais densas trevas? Encheremos nossa existência de escuridão até que se complete nossa medida. “Qual grandes trevas...” comenta Jesus.

Onde está teu tesouro? Para ele, seguiu sua alma.

Que o Criador nos converta, e em nós nasça o desejo conveniente ao Reino, sendo isso nosso tesouro, para que nele nosso coração esteja.