26 de dezembro de 2010

Confissões de um discípulo confuso

por Zé Luís

Difícil.

Ele sabia do que falava quando afirmou que aconteceria, não houve o que fazer para evitar minha vergonhosa realidade: eu trairia, negando-o.

Estive com o Mestre por três anos, desde o começo, quando me chamou pessoalmente. Fui um dos únicos - revelado pelo próprio Espírito - a reconhecer que ali ía mais que um homem, e ao perceber a imensidão de quem estava a minha frente, recuei, pois sei quem sou, e o que Ele poderia fazer com pessoas erradas como eu em sua presença.

Mesmo assim me aceitou, me chamando para estar em seu futuro Reino como alguém digno de ser seu ministro. Tomei isso como aprovação de meu ímpeto, minha forma de enxergar a vida, comum a todo patriota judeu desta época. Vivemos uma opressão invasora: meu gênio certamente fará diferença nessa retomada. É isso que entendo quando Jesus fala de Reino.

Com o passar do tempo, o Mestre foi abrindo sobre seus propósitos, e estes começaram a ficar estranhos, confusos, não só a mim, mas a todos os outros companheiros de jornada. Ele falava que a tal nação seria constituída de gente impura, gente de fora do meio escolhido por Ele mesmo, povo sem o conhecimento necessário para cumprir as regras de D'us, nascida em pecado e erro, não sabendo distinguir uma mão de outra. Gente reprovável, que estranhamente, o Messias parecia estranhamente interessado em ajudar.

Esses pagãos são os mesmos que matam nossa gente, oprimem meu país, destroem nossa cultura e esperança, e Jesus parece se agradar deles tanto quanto a nós.

E pior: eu, que o amo – e faço questão de dizer isso aos quatro ventos – tenho, segundo ele, que me converter. O que Ele quis dizer com isso? Conversão significa inversão de caminhos: se Ele aceitou-me como era, que caminho devo inverter? O que não aceita em mim? Converter significa deixar de ser completamente o que era. Não entendo. E ainda profetizou sobre minha vida: “Você me negará...”. As vezes o Mestre parecia não me amar. Estranho...

Neguei-o.

Foi o que fiz, diante de gente totalmente desimportante, por três vezes. Eu, campeão mundial de caminhada sobre as águas, que estive a frente de seu grupo, que em sua prisão me predispus a morrer junto(cortei a orelha de um guarda!), fui pra cima! E Ele preferiu morrer...

Seu olhar cruzou com o meu quando fizeram seu julgamento no meio da madrugada (queriam se livrar dele rápido, antes do sábado sagrado). Eu era o único do bando disperso que me arrisquei a ir vê-lo, antes tivesse me acovardado: não estava preparado para saber o quanto falharia diante de meu amado Mestre. Chorei diante de minha vergonhosa atitude, ao ouvir o galo cantar.

Seus olhos, inchados por espancamentos, cruzaram tristemente os meus quando xingava os que me acusavam de ser seu discípulo. Duro admitir o que se é, Deus está sempre certo. Resta-me fazer o que sempre fiz antes de Seu chamado. Sei que não fazem nem dois dias que o corpo está na tumba. Mas já deixei bem claro o que fiz entre os meus: sou um covarde traidor que negou ao Mestre quando mais só e abatido estava. E pior: Ele sabia quem eu era o tempo todo. Devia ter me abandonado. Por que ficou comigo? Este traste que sou...

Vou pescar e terminar meus dias fazendo isso. O que me resta? Deus está morto, assassinado em um madeiro pela nação que também amou. Dos seus, restam apenas seguidores apavorados, trancafiados na mesma sala onde ceiamos pela última vez.

Acabou a esperança, morreu na cruz.


Simão Pedro,
 madrugada de sábado, dois dias após a crucificação do Mestre.

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